Fechei a porta e as janelas. Nem precisava disso. Não tem ninguém em casa. Parece que fazendo isso eu oficializo que estou sozinho. De repente, parece que estou solitário porque quero. Nada de roupas. A falta de repreensão ou olhares escandalizados enfatiza ainda mais o fato de estar só.
Ao meu lado esquerdo tem um espelho grande. Ultimamente, ele só tem me mostrado feio. Segundo ele falta muita coisa e sobram outras tantas. Ele nunca me incentiva. A direita tem uma TV de 21 polegadas que quase nunca é ligada. Minha mãe a colocou aqui porque costumo ficar muito tempo assistindo novelas e seriados. Desde então, as horas gastas com esse tipo de programa diminuíram muito. Ela tem feito às vezes de espelho. É possível ver meu reflexo através dela. Minha imagem nela não é tão ruim. Por ter fundo escuro, ela omite os defeitos que o espelho destaca. Eu sou praticamente um vulto. Ao contrário do que muitos dizem, não creio que a televisão nos iluda, engane. Só considero isso verdade quando ela está desligada.
Fora isso, não tem mais nada. É tudo tão sem graça. Alguém já disse que o quarto é a cara de seu dono? Deve ter dito. Não seria o primeiro. Nunca sou. Meia jogada no chão, mochila embaixo da cama, tênis na janela, roupas sujas e amarrotadas esperando serem utilizadas mais um dia porque não são consideradas tão impróprias para o uso. Isso pode parecer desorganização, mas não é. É adaptação. Não coloque porcos onde não for chiqueiro. Deixe-me onde não há lógica. Embora, eu tente racionalizar tudo que vivo, no meu quarto eu tento viver a vontade. Por pior que pareçam, as coisas aqui são espontâneas.
O sofrimento é brando. O espelho me aponta, mas por não constituir um outro, ser apenas resultado de mim mesmo, ele não me faz mal. Não tanto quanto eles (os outros). Além disso, as pessoas que aqui entram não me enxergam. Felizmente, isso não ocorre devido ao fato de eu não ter importância, mas sim por não ser possível fazê-lo através de tanta ‘desorganização’.
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