terça-feira, 20 de outubro de 2009

No seu lugar

Comecei a ir sozinho ao cinema aos 17 anos. Um ano antes do meu primeiro beijo e quatro antes da minha primeira transa. Eu não me contentava em ir só, eu precisava que o cinema estivesse vazio. Por isso, ia sempre àqueles lugares mais cults que não atraem multidões.

Nunca era o único do lugar, mas, pelo que me lembro, não passava de cinco espectadores. Em um desses dias, eu cheguei um pouco mais cedo para a sessão e esperei dar a hora em um dos bancos perto da bilheteria. No assento ao lado do meu, estava uma pessoa, nem muito nova, nem muito velha. A sua única característica marcante era eu nunca tê-la visto.

Peguei um Pop-Art para me distrair. Nele tinha duas pessoas nuas, mas não era nada explícito. A imagem era borrada. Nesse momento, ouço uma voz perguntado se eu já havia visto a peça. Ah, o cartão era propaganda de teatro. Respondi que não e a fulana continuou o assunto. Não parava de falar.

Chegou a hora de iniciar o filme. Fui para a sala. Percebo que ela se dirigia para o mesmo lugar que eu. Só não foi o mesmo porque creio que ela tinha o mínimo de bom senso e não se sentaria no meu colo. Ficamos em poltronas vizinhas. Dois desconhecidos juntos em uma sala com uma centena de cadeiras disponíveis.

As luzes se apagam, a história começa. Era “Caminho das nuvens”. Sinto um cotovelo roçando em mim. “Que saco. Detesto gente espaçosa”, pensei. Pouco depois, tinha um braço inteiro caído sobre mim e pelo andar da carruagem logo, logo, aquele braço descansaria em minhas coxas. Inclinei-me para o lado oposto do dela. Ela deve ter percebido, pois diminuíram tanto a quantidade quanto a intensidade das investidas.

Finalmente, o filme acabou. Queria ir embora correndo. Fui. Não sozinho. Mesmo depois de inúmeras negativas, ela decidiu me acompanhar ao ponto de ônibus. Até na hora de atravessar a rua ela deu um jeito de pegar em mim. Minha vontade era perguntar: “Para que isso? O sinal está fechado”. Não tive coragem. Penso que eu tinha medo da resposta.

No meu ponto, me despeço, mas ainda não era o bastante. Ia esperar até que meu ônibus passasse. Nesse meio tempo, me convidou para ir até sua ‘escola’. Era professora de matemática para vestibulandos. Na verdade, era estudante de engenharia química. Não aceitei. Depois me deu o telefone de sua escola e pediu que a procurasse. O transporte chegou. Enfim, só.

Não telefonei para ela, sequer guardei o papel. Era bom aluno. Não precisava de mais aulas. Cheguei em casa afoito para contar tudo para minha mãe. Para mim tudo aquilo foi um absurdo. Como alguém tem a ousadia de abordar outra pessoa daquela maneira? Minha mãe concordava com tudo e se mostrava mais estupefata que eu.

Anos depois, vejo que a fulana fez algo tido como normal. As pessoas se interceptam desse modo nas mais variadas situações. Indo a padaria, no caminho do cursinho, no açougue e, se bobear, até em enterro de um ente querido.

Mesmo assim, continuo o mesmo. Vou à escola para estudar, ao ponto de ônibus para pegar um coletivo e chegar a algum lugar, na farmácia para comprar remédios, ou seja, faço as coisas da forma como elas realmente devem ser feitas, segundo meus princípios. Talvez um dia eu mude. Tomara que não.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Apenas

Tudo na vida vem com o tempo. Essa frase é mega clichê, tem um fundo de verdade, mas se olharmos bem ela é muito alienante. Para mim, foi. É muito cômodo esperar aprender as coisas com a calma de quem tem uma infinitude de dias pela frente.

Sempre pensei que a maioria nunca foi parâmetro para nada. Repetia aos quatro cantos a velha e batida frase do Nelson Rodrigues: “Toda maioria é burra”. Acho que no confronto entre pieguices, a primeira ganhou.

Nova fase a ser experimentada, novo grupo. Meus padrões se chocavam com esse novo universo. O que eu fiz? Tomei o que era dos outros e tentei me assemelhar. Só tentei. Não consegui. Então, tomava minhas doses diárias de “tudo vem com o tempo” e continuava buscando ser um deles. Em momento algum me passou pela cabeça que não combinava com meu jeito aquele way of life.

Hoje, após ter caído na real, eu percebo que foi um tempo perdido na esperança de que esse mesmo tempo trouxesse algo. Porém, ele só fez levar. Não foram poucas coisas que me foram tiradas. Mesmo assim ainda é remediável.

Sempre fui muito sozinho. Não daquele jeito triste. Como diz a Maria Bethânia, não sou só de um modo solitário. Dou-me bem comigo. Vou investir nessa relação. Continuarei a realizar outras mais dialógicas. Só que agora, sem a necessidade de ser igual ou a obrigação de concordar com tudo.

sábado, 17 de outubro de 2009

... é muito mais elegante

Há muito tempo não escrevo nada. Não é preguiça, falta de tempo, ou qualquer outro motivo. Ando sem o que falar. A única coisa que me acontece é ficar chateado e empolgado. Várias vezes e em um mesmo dia. Quem não passa por situação parecida? Por isso prefiro nem comentar. Tenho medo de ser repetitivo, mesmo que só o seja para mim mesmo. Enfim, tudo tem passado sem ferir ou fazer cócegas. Mentira! Algumas coisas não têm passado... essas doem.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Tchau

Uma tia falou com a família que estava cansada de viver, que já tinha experimentado, em seus quarenta e poucos anos, o bastante. Já era a hora de morrer. Segundo ela, nada havia sido como ela planejara e a sua rotina consistia no enorme esforço de ser feliz mesmo na adversidade. Ela nunca se sentiu satisfeita com aquilo que havia conseguido, ou melhor, sempre se sentiu insatisfeita pelo que não conquistou. Quando eu soube disso, achei meio chocante e pensei bastante a respeito. Atualmente, eu a entendo.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Temporão

"Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo"
Oração ao tempo, Caetano Veloso

Por mais que o tempo passasse e as coisas que fizesse resultassem em algo bom, ele continuava acreditando não estar preparado. Ele não se achava pior. Apenas sentia estar queimando etapas. Nada estava no tempo, nem lugar correto. Os dias eram afobados, a vida corrida e ele lento. Não uma morosidade preguiçosa, era, na verdade, uma leveza em ser.

Era cobrada dele uma ação logicamente sequenciada, quando na verdade, a sua necessidade, era viver com a liberdade de um cavalo do xadrez. Sempre andar em L, mas sem perder a possibilidade de ora ir para frente, ora ir para trás e, no mais das vezes, simplesmente ficar parado para que alguém o derrubasse.

Os carros seguem o fluxo, a televisão a sua grade, os crentes a sua religião e ele queria seguir levando a mesma vidinha pontual. Às vezes estar aqui, em outro momento estar lá, sem se importar com o caminho, com o tempo do percurso, sem se atentar a nada. O deslocamento o firmava.

O olhar de ontem que sempre ostentava provocava emoções variadas em quem o visse. Quem não o entedia, o desdenhava. Os que pensavam que o conheciam, também. Os capazes de compreendê-lo, não se manifestavam. Eram também eles leves e para se manterem assim, optavam por pensamentos breves. Prazerosos, críticos, mas sempre breves. O viam, o entendiam e o deixavam ir.

Ele ia. A sua vida ia. Sua lerdeza ia. Ficava para os outros o peso daquela mesma rotina, de estar a tempo, de sempre ser preciso, lógico, de ter inúmeros objetivos e se alegrar com a realização de alguns deles, poucos deles. Deixava aos outros a angústia de perceber que a vida não precisa ser assim.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

C'est la vie

Acabou. Não me sinto triste, nem feliz. Sempre tive o fim como um axioma. Não é para ser analisado. Ele não serve como uma lição de moral. Ele é dado e não é único. Muitos ainda virão.

É claro que muita coisa se perde com o encerramento, mas muitas se ganham e se perdem novamente. Assim vai ad infinitum. É bom lembrar que até quem inventou essa expressão, o latim, acabou.

Não tento pensar se aconteceu na hora certa ou na errada. Só sei que foi no momento que alguém escolheu. Arbitrário? Pode ser. Por isso, quem tem que meditar a respeito disso é o árbitro. Eu tenho só que viver.

Minha falta não será muito percebida em nenhum dos vários fins em que estiver envolvido. Sou meio mensageiro do vento. Chamo atenção, mas sou pouco funcional. Escolhi assim.

sábado, 4 de abril de 2009

Rules and regulations*

"Yeah, these are just the rules and regulations
And I like everyone, yes I like everyone
Must follow them"

Eu tenho manual de instruções. O problema é que não compartilho. Tudo na minha vida respeita algumas regras fixas. É só a pessoa me observar que vai ver o quanto sou previsível. De todos os tópicos desse manual os mais rígidos dizem respeito à decepção.

Por exemplo, não consigo permanecer amigo de alguém que fica ou namora uma pessoa que considero baixa, burra, promíscua e o diabo a quatro. Não sei por quê. Até tento pensar que não foi nada, foi momentâneo. Porém, logo penso que tudo na vida é fugaz. Se minha personalidade não for construída através dos momentos, do que mais será feita?

Essa é uma das decepções. Existem outras. Tenho tentado me desfazer delas para facilitar o meu convívio e manter o meu plantel de amigos. Ainda não estou apto a isso. Certas atitudes ainda são inimagináveis para mim. E não são ações escabrosas. As mais simples podem me incomodar.

Enfim, espero que as pessoas não as façam. Mentira! Eu espero não me importar mais. Fazer o que querem ou o que acham certo é uma coisa que eu sei que ninguém vai deixar de lado. Nem devem. Afinal, elas também têm o seu manual.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Não devia ter escrito

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida."
'Aniversário' - Álvaro de Campos
Arrependo-me de tanta coisa. Gostaria de voltar atrás em quase todas as escolhas que fiz até hoje. Por mais que tudo tenha sido exaustivamente pensado, de fato nada representa muito algo de mim. Levo em consideração muitos detalhes. E no fim das contas vejo que me apeguei aos mais banais.

Queria tanto dizer o clichê “Não me arrependo de nada” com convicção. Melhor, gostaria de acreditar nas pessoas que dizem isso. Não consigo enxergar a possibilidade de me orgulhar de todo trabalho feito e do não feito por mim.

Alguns erros cometidos são pequenos, outros nem tanto, mas o problema é o aumento do número de arrependimentos. Eles estão pesando meus ombros. Tenho vontade de ser radical, porém recuo. Vou me arrepender. Sou reformista, embora me entristeça ser assim.

Penso em mudar de cidade. Não tenho coragem. Não vai ser bom. Como pude me tornar tão inerte? Quero transformar o meu modo de ser. E se eu perder o respeito? Afinal todos me conhecem dessa maneira. Alguém me respeita?

Tenho certeza que daqui há alguns anos me arrependerei de ter me mantido igual. Tenho certeza que daqui há alguns anos me arrependerei de ter me feito diferente. Não tenho certeza de como tudo será daqui há alguns anos
.

domingo, 22 de março de 2009

Sobre nome

Existe alguém com o meu nome. Não se trata simplesmente de um homônimo. Sei que existem vários. Porém, este tem o nome que tem por minha causa.

Tudo aconteceu na infância, quando eu estava no segundo período. Tinha vários amigos. Todos recentes, pois havia entrado no jardim de infância naquele ano. Entre meus pares havia um chamado Felipe Loyola. Éramos bastante próximos. A proximidade era tanta que ele sentia a necessidade de mentir que eu o havia visitado, ido com ele ao shopping, visto a prima dele pelada, etc. Não sei por que ele fazia isso. Nada disso aconteceu.

Lembro que ele sempre gritava meu nome ao me ver. Podia estar perto ou distante. Não importava, ele precisava berrar. Em um desses dias, na saída da escola, ele grita e diz ter uma surpresa. Só falou isso. Preferiu manter o suspense.

Só vim saber o que me aguardava no fim da tarde daquele mesmo dia. A mãe dele foi a minha casa para informar minha mãe e eu que, devido à insistência do Felipe, o filho que ela estava esperando se chamaria Frederico.

Isso é muito engraçado. Hoje não nos vemos mais, mas o Loyola é uma das poucas pessoas que eu sei que jamais vão me esquecer
.

sexta-feira, 20 de março de 2009

In memoriam

Vivia a olhar. Assistia a filmes, músicas e poesias para ver se de alguma forma me encontrava nelas. O tempo passou, eu também. Não consegui.

As pessoas viviam a olhar todas aquelas coisas que outrora eu também vira. E de alguma forma, lembravam-se de tê-las visto em mim.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Profundo

"Como um desejo de eu viver sem me notar"
Verso de 'Gente Humilde', música de Vinícius de Moraes,
Chico Buarque, Garoto e Nicanor.
Algumas pessoas me perguntam se não me incomoda levar a vida da maneira que eu o faço. Elas me apontam como sem coração. Na verdade, o que elas querem dizer é que sou raso. Não vou dizer que é sempre bom. Porém, não corro o risco de me afogar.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Lanches Licious

Definitivamente, investir em jornalismo é bater com a cabeça na parede. É uma área saturada, de salários indignos e muitos altos e baixos, sendo que a desgraça é um pouco mais recorrente.

Graças a Deus, essa não é a minha única alternativa. Conversando com uma amiga, decidi abrir uma lanchonete com comidas básicas, mas tudo bem asseado. O custo inicial para abrir o negócio é baixo, pois nada exige ingredientes exóticos e a experiência necessária nós já possuímos. A clientela certamente aparece com o tempo, afinal serviremos bem. Seja um café, almoço, jantar ou lanchinho da noite... tudo será feito com muito ânimo e empenho.

Minha amiga atua no ramo há alguns anos e, como ela diz, com o meu apoio é fato que atenderemos toda a cidade, tendo chance de atrair até altos executivos com nossos produtos suculentos. Apenas nos resta tentar dar certo.



Veja nosso primeiro anúncio:




Ops, meu nome saiu errado. Era pra estar ali no
lugar de Luana.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Delitos e deleites

Engraçado, quando tento me lembrar o que já fiz, tirando tudo de seus contextos, me sinto um delinquente neurótico. Por isso, é importante dizer que “Não sou nada disso”.

A primeira coisa que me vêem a cabeça é que já roubei a padaria. Foram três picolés. Um de cada vez. Sem querer fazer apologia ao crime, não me lembro do sabor dos picolés, mas lembro da sensação de estar comendo os mais gostosos de todos.

Continuando na área alimentar, é bom que saibam que já fui gordinho. E, certa vez, inventei uma dieta para deixar de ser: a dieta da taioba. Comi taioba, só taioba, por vários dias. Parei no dia em que olhei para o vaso sanitário e me espantei com meu coco todo verde.


Também já passei semanas tomando apenas leite. Cismei que se ingerisse algo sólido passaria mal. Nessa época eu descobri que quase sempre eu tenho razão, pois, ao fim da terceira semana, comi pão e adivinhem no que deu. Passei mal mesmo!

Ah, tive um cemitério de mosquitos. Todo mundo brigava comigo porque eu matava os bichos para enterrá-los. Foi aí que vi meu poder argumentativo. Sempre respondia: “Você vê mosquito morto naturalmente pelos móveis afora? Como quer que eu mantenha um cemitério sem mortos?”. Depois dessa ganhei meu primeiro mata-mosca.

Falando em mortos, já ameacei meu irmão com uma faca, mas já vou dizendo, tive motivos. Ele não queria trocar de canal! Preferia me forçar a ver aquelas coisas enfadonhas de esporte. Mesmo sabendo disso, as pessoas insistiam em me recriminar.

Enfim, já menti e floreei histórias para me sentir bem. Não quer dizer que faça ainda, ou quer. Vai saber!

sábado, 7 de março de 2009

Sinto muito

Não gosto de pessoas sensíveis. Elas são chatas. Enfiam o bendito sentimento em todas as discussões e conseguem transformar qualquer atitude ‘bondosa’ em exemplos de vida. Sem contar que não se pode conviver com elas normalmente, pois uma atitude impensada pode magoar as pobrezinhas.

Personificação de livro de auto-ajuda. É isso que elas são. Fáceis de ler, conteúdo parco e dizem sempre a mesma coisa. Algumas podem até ser best-seller, porém jamais serão respeitadas.

Será que só eu prefiro pessoas objetivas e nada sentimentalóides? Por que esse tal de Shrek, um ogro que nega a raça por ser ‘gracioso’, faz sucesso? Acho que esse mundo está perdido. Tem muita gente apostando nas mocinhas, sendo que quem constrói e dá consistência às histórias são as vilãs.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Sem cobertura

Eu tenho inveja de quem tem muito dinheiro. Só dos que tem muito mesmo. Deve ser incrível simplesmente comprar as coisas. Ir aos lugares. Pagar as contas e tudo mais sem a menor preocupação se vai restar uma mísera quantia para o próximo fim de semana. Não é uma cobiça do bem ou como muitos dizem uma invejinha branca. É negra mesmo. Daquelas que o diabo gosta.

Não acho que isso me torne um ser humano ruim. Ando tão desassossegado com minha questão financeira. Não consigo fazer nada em paz. Preciso pensar mil vezes antes de tomar um sorvete. Falando nisso, fui a uma sorveteria a quilo essa semana. O preço dela não refrescava em nada. Servir-me foi um martírio. Coloquei três bolas minúsculas. Tão pequenas que se banhasse em alguma cobertura verde poderiam passar tranquilamente por uvas.

Coloquei na balança. Há muito não sou religioso, mas de repente me pego pedindo a Deus que o marcador de preço parasse de subir. Ele não parava. Cheguei a desejar que o sorvete derretesse subitamente. Não sei por que penso que derretido pesará menos. Acho que ainda tenho aquela síndrome que nos faz achar quinhentos gramas de chumbo mais pesados que meio quilograma de pena.

No fim das contas, foi bem caro. Tentei desviar minha atenção e não ficar pensando tanto no valor do sorvete. Fui para a mesa na expectativa de que o sabor daqueles pequenos grãos me faria ver o quanto cada centavo foi bem empregado. Era bem gostoso, mas não o suficiente para me fazer esquecer. Mesmo se conseguisse abstrair o dinheiro gasto meu sossego não duraria muito. O sorvete não durou.

Enquanto isso, eu olhava as mesas ao lado e as pessoas ostentavam potes gigantescos. Isso não me incomodava. Na verdade, eu fiquei p*** da vida ao perceber que elas, mesmo com aqueles tonéis de sorvete, conseguiam ser felizes. Elas eram tranquilas. De onde vinha tão nobre sentimento?

Observei mais um pouco. Nesse momento, olhando para a pele delas, eu vi a grande diferença entre nós. Estava no bolso e na cara. A delas deixava evidente que foram tratadas desde a infância, puramente, a base de danoninho. Enquanto eu amargava jarras e mais jarras de gelatina.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Carnavais

A crise levou meu salário embora. Dizem que um dia ele chega. Só resta esperar. O carnaval, porém, não aguardou nem mais uma semana. Está aí. Hoje já tem aquela galera desfilando em São Paulo. Sem contar o povo que está pegando o caminho para deixar a roça. E eu? Fico aqui.

Acho que o mais interessante a se fazer em BH nesses dias é tomar sorvete. Vou fazer isso todos os dias. Melhor não, tenho que economizar o pouco dinheiro que me resta. Ser imprudente pode me obrigar a pedir dinheiro emprestado para a minha família, para um agiota ou até para um banco. Tentarei pensar em um plano B.

Posso repetir o carnaval de 2007 em que chamei minha prima pra fazer um pic-nic na pracinha perto aqui de casa. Foi um banquete. Levamos brigadeiro, refresco de laranja e biscoito maisena. Também reservamos uma cartela de dramin para tomar mais a noitinha e dormir até o fim do próximo dia. Tudo isso para ver se o tempo passava mais depressa.

Chegamos à praça, já era tarde. Montamos a mesa. Consideraríamos aquilo uma fartura se na nossa frente não tivesse uma pizzaria e churrascaria cheia de gente se matando de tanto comer. Nossa visão nunca foi tão aguçada. Eu via o catupiri se desmanchando na boca das pessoas. Eu parava de olhar, mas não tinha jeito. Minha imaginação projetava aquelas cenas na frente dos nossos olhos. Nem podíamos pensar em entrar naquele lugar. Tudo era caro. Assim como hoje, não tínhamos um centavo.

Ah, onde estávamos não tinha iluminação. Comiamos no escuro. De repente, parece que Deus resolveu fazer um remake das pragas que ele impôs aos egípcios, o ambiente se encheu de pernilongos. Fomos esvaziados.

Saímos da praça. Nosso banquete não durou mais que 45 minutos. Nos dirigimos para a casa dela. Costumo andar depressa. Contudo, nesse dia eu controlei meus passos, pois ela me repreendeu dizendo que daquele jeito chegaríamos muito rápido. Era melhor aproveitarmos a caminhada já que era a única coisa que tínhamos para fazer.

Na casa dela, nós começamos a ver TV. Era hora dos desfiles. Murchamos ainda mais. Estávamos sendo intensamente bombardeados com a felicidade alheia. Desligamos. Chegou a hora de uma decisão drástica. A única saída era tomar aquela substância que nos salvaria de tudo aquilo (o dramin). Ela foi a primeira a engolir, não antes de jurar que os próximos carnavais seriam diferentes. Eu o fiz logo em seguida, reiterando sua promessa.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Joguete

Nosso único objetivo era a conversa fiada. Ficávamos horas a fio jogando palavras de um para o outro. Ora falávamos bobeiras, ora coisas sérias. Tudo sem muita importância, porém pensávamos nesse tudo com bastante apego. Nossa vida era analisada, revisada e tínhamos total liberdade de recriminar ou louvar a atitude do outro.

Pelo que eu me lembro, nós nunca brigamos. Como ela mesma diz, nossa relação existe desde o nascimento (eu vim depois). Ela chama o nosso envolvimento de contrato. A assinatura do acordo foi feita há 23 anos. Rescindi-lo seria caríssimo. Essa não é a intenção.

Somos primos. Alguns acham que namorados. Na verdade, somos só primos. E amigos. Mais amigos que primos. Para não gerar muita polêmica, somos os dois. Ela não curte muito o resto da família. Eu nem um pouco. A família meio que nos odeia. Um tipo de ódio cheio de amor.

Nossas conversas, as vezes, chegavam a conclusões. Raríssimo. Dessas constatações, a que mais me lembro diz respeito ao jogo queimada.

- Eu era muito bom na queimada. Fugia de todas as bolas. – eu disse.

- Também era. – ela se empolga

- Nossa, eu era um dos primeiros a serem escolhidos pelo capitão do time.

- Eu gostava de ser a capitã. Sempre gostei de selecionar o pessoal. É bom pra montar um time forte.

- Ah, eu prefiro saber que gostam do que faço. Por isso, ficava no banco para ser apenas chamado.

- Aqui, você tinha mania de jogar tanto, mas tanto que chegava uma hora que não tinha mais força para jogar? – ela me pergunta.

- Ih, direto. Eu continuava jogando mesmo querendo parar.

- É... tem uma hora que cansa.

- É.

- Aí eu pedia altas. - ela se entrega.

Não sei a razão, só sei que nesse momento nos calamos e só ficamos olhando ao nosso redor até que eu soltei um pedaço da minha sabedoria juvenil.

- A vida também cansa. Acho que eu quero altas.

- Tô de altas – ela se apressa.

Rimos demoradamente e, no fim, continuamos a jogar mesmo querendo parar.

P.S.: altas é uma forma de sair do jogo sem ser um desligamento definitivo. Quem pede altas sempre volta a jogar. Portanto, em hipótese alguma pensamos em morrer.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Pau, pau ... pedra, pedra

Tudo é relativo. Mesmo. Sempre me achei uma pessoa muito aberta às diferenças. E realmente sou. Essa percepção começou a surgir quando iniciei minha empreitada no mundo da antropologia. Foi uma época de encantamento. Relativizava tudo, sem exceção. Com o passar do tempo, após a segunda, a terceira disciplina... reparei que tinha perdido o senso de certo ou errado. Para mim tudo era um oba-oba. “Isso é errado” dizia fulano e eu, do alto do meu ‘relativismo cultural’, indagava - “Errado em relação a quem?”

Essa fase foi importantíssima, mas hoje eu vejo que é incabível ser assim. As coisas precisam de parâmetros. E mesmo na época em que eu adotava essa postura ‘world peace’ era possível perceber o quanto eu estava sendo incoerente. Por exemplo, em uma aula de semiótica a professora, ao ser bombardeada por milhares de perguntas feitas por mim, disse: “É preciso abstrair. Não podemos esperar definições de tudo.” Ao escutar aquilo uma revolta tomou conta de mim (tenho uma grande facilidade de me exaltar contra os docentes) e eu rebati energicamente – “Abstrair é importante. O problema é que não consigo aprender sem algumas definições”.

Como eu podia pedir modelos se o meu relativismo me levava a destruir todos os conceitos? Se era tudo tão possível, por que eu não aceitava a total abstração daquela mulher? Hoje eu vejo que eu era pouquíssimo relativista. Um iniciante. A grande questão está em relativizar o relativo e perceber que existem coisas concretas, ou pelo menos convenções concretas.

Continuo aceitando e defendendo (algumas) diferenças. Com menos afinco, admito. Não sei se minha cabeça mudou ou se foram as situações, mas é fato que tenho vivenciado muito mais coisas ‘erradas’. Até poderia olhar para elas e concluir que quem as fez teve seus motivos. Não, não quero agir assim. Quero me dar o direito de considerar aquilo incorreto - para mim - e falar em alto e bom som que não faria as coisas daquela maneira. Isso faz de mim um santo, um careta, um chato? Não sei. Penso que não. Cometo deslizes também e, em momento algum, espero que relativizem meu lado. Portanto, desejo que não esperem, mais, isso de mim.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

No meio de tudo tem eu

Fechei a porta e as janelas. Nem precisava disso. Não tem ninguém em casa. Parece que fazendo isso eu oficializo que estou sozinho. De repente, parece que estou solitário porque quero. Nada de roupas. A falta de repreensão ou olhares escandalizados enfatiza ainda mais o fato de estar só.

Ao meu lado esquerdo tem um espelho grande. Ultimamente, ele só tem me mostrado feio. Segundo ele falta muita coisa e sobram outras tantas. Ele nunca me incentiva. A direita tem uma TV de 21 polegadas que quase nunca é ligada. Minha mãe a colocou aqui porque costumo ficar muito tempo assistindo novelas e seriados. Desde então, as horas gastas com esse tipo de programa diminuíram muito. Ela tem feito às vezes de espelho. É possível ver meu reflexo através dela. Minha imagem nela não é tão ruim. Por ter fundo escuro, ela omite os defeitos que o espelho destaca. Eu sou praticamente um vulto. Ao contrário do que muitos dizem, não creio que a televisão nos iluda, engane. Só considero isso verdade quando ela está desligada.

Fora isso, não tem mais nada. É tudo tão sem graça. Alguém já disse que o quarto é a cara de seu dono? Deve ter dito. Não seria o primeiro. Nunca sou. Meia jogada no chão, mochila embaixo da cama, tênis na janela, roupas sujas e amarrotadas esperando serem utilizadas mais um dia porque não são consideradas tão impróprias para o uso. Isso pode parecer desorganização, mas não é. É adaptação. Não coloque porcos onde não for chiqueiro. Deixe-me onde não há lógica. Embora, eu tente racionalizar tudo que vivo, no meu quarto eu tento viver a vontade. Por pior que pareçam, as coisas aqui são espontâneas.

O sofrimento é brando. O espelho me aponta, mas por não constituir um outro, ser apenas resultado de mim mesmo, ele não me faz mal. Não tanto quanto eles (os outros). Além disso, as pessoas que aqui entram não me enxergam. Felizmente, isso não ocorre devido ao fato de eu não ter importância, mas sim por não ser possível fazê-lo através de tanta ‘desorganização’.

domingo, 25 de janeiro de 2009

De filho para mãe

Numa noite qualquer, um jovem cristão chega para a sua mãe acometido de uma tristeza saída de não se sabe onde e diz:

- Por que Deus não faz o que eu peço?

Ela responde:

- Ele faz sim. O que você quer?

- Ser mudado.

- Para que?

- Não quero mais ser errado.

Ela, sem saber do que se tratava, rebate.

- Mas você não é...

- Sou sim.

- Enfim, meu filho, dê tempo ao tempo. Deus só faz as coisas na hora Dele.

Alguns anos se passaram, nada havia se alterado. Os pedidos não foram atendidos e o menino, já homem, se sentia menos transviado. Já sua mãe não pensava como antes.

- Meu filho, você está errado.

- Eu sei, mãe. Sempre te disse.

- Você tem que mudar.

- Sim, tenho. Mas o melhor a fazer é esperar... aguardar o momento em que Deus decidir fazer a transformação.

Assim ela fez e faz. Posso vê-la ajoelhada em seu quarto, com a Bíblia ao alcance das mãos a pedir que seja rápido.

sábado, 24 de janeiro de 2009

O dia em que fui mais feliz: ele

Sempre quis daquele jeito. Com coisas a acrescentar e outras a aparar: nele. Tudo começou meio torto. Discussões sem fundamento por querermos sentar no mesmo lugar. Eram brigas calorosas e inúteis. A princípio, não gostava dele. Perfeito. É comum que eu goste de quem não me apetece.

Mudei de lugar. Resolvi ceder às suas tentativas. Finalmente ele poderia ter o que queria. Ele foi para o meu lado. Hoje penso que ele e eu não queríamos o espaço do outro. Apenas desejávamos o espaço entre nós. Fomos muito amigos. Tanto que, quando o colégio entrou em greve, eu ia às aulas só para desfrutar de sua companhia.

Ele tinha muitos amigos. Eu só tinha ele. Existiam outros caras muito próximos e que eu prezava muito. Porém nenhum tinha um buraco no meio do peito, ou carregava um rolo de papel higiênico na mochila, nem se banhava em desodorante barato a cada 15 minutos ou sequer fazia rodízio de livros didáticos comigo para que não carregássemos peso demais. Cada um levava o de uma matéria e líamos juntos. E o mais importante, ninguém me disse essas duas frases:


- Confia em mim. Pode marcar a questão c. Eu não te passaria cola errada.

- Não chora. Eu estou aqui ainda. – a razão dessa frase melosa foi o meu choro copioso no último dia de aula.

Na época, ele me falou que iria fazer a prova de seleção do Cefet e do Coltec. Eu sabia que passaria. Resolvi tentar também, mesmo sem querer fazer um curso técnico. Estudei muito. Todos os dias. Em determinado momento, eu até acreditei que aquele era meu sonho: ser um técnico em eletrônica. Fiz as provas. Não passei. Ele conseguiu se dar bem em ambas.

O resultado saiu dias antes do Natal. Nenhum presente mudou meu ânimo. Sinceramente, nunca uma reprovação tinha me deixado tão mal. Meu ano aconteceria sem ele. Eu desabei em lágrimas no meio da ceia. Por falar em choro, eu, nos primeiros seis meses do ano seguinte, derramava prantos, todos os dias, minutos antes de ir para a escola.

O tempo foi passando. Tentamos manter o contato. Porém, só fizemos nos distanciar. Uma das grandes perdas da minha vida. Outros chegados surgiram e me fizeram muito bem. Já amigos, acho que não mais tive. Na verdade, até existiram (existem), mas eu não quis dar o título formalmente. Porque depois dele, eu só quis daquele jeito.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O dia em que fui mais feliz: a tarada

Desengonçada. Não há palavra melhor para caracterizar essa pessoa que com o tempo viria a ser minha amiga. Ela era muito alta, cabelos compridos e desgrenhados, pele oleosa, óculos fundo de garrafa e nunca vi um short de moletom cair tão mal no corpo de alguém quanto acontecia com ela.

Sempre muito séria e fechada em seu grupinho, só ouvia os bochichos, as gargalhadas que davam. Não me intrometia. A princípio, eu ignorava tudo. Não procurava me relacionar intensamente. Além disso, eu preferia observar. Não sei por que, mas sempre senti nessa menina um potencial sexual incrível. Sabe aquelas freiras de filme que se comportam como santas, no entanto, escondem o diabo por baixo do hábito? Ela era assim para mim.

Sempre via quando ela observava o volume entre as calças dos meninos e, discretamente, (pelo menos, ela pensava que era assim) comentava com suas amigas que apenas riam. Nossa, ela era daquelas que perdiam o rumo ao ouvir a palavra (me perdoem o vocabulário) PINTO.

Tanto é verdade que nosso primeiro contato envolveu o meu membro. De forma indireta, é claro. Ele permaneceu guardado em minha roupa de baixo ‘100% algodão’. Ele apenas foi evocado por ela. Nessa época, eu tinha a mania de manter a mochila no colo, mesmo após sentar a carteira. Sem que eu soubesse, ela se incomodava com isso. Esse desconforto fez com que ela puxasse uma conversa.

- O que você esconde sob essa bolsa? - perguntou ela

- Oi? – eu, sem entender.

- Alguma coisa você deve esconder debaixo dessa mochila? Não tem outro motivo para mantê-la aí o tempo todo.

- Ahhhh, não tem nada.

- Deve ser grande, né?

- Nó, imenso. Acho melhor nem mostrar. - respondi entrando na brincadeira.

A partir desse momento, ficamos amigos. Ela me convidou para sua festa de 15 anos. Segundo ela, eu só me aproximei para poder ter acesso a sua festa de debutante. É evidente que isso é uma mentira. Nossa afinidade é mais embaixo.

O dia em que fui mais feliz: o início

Era 2000. O mundo não tinha acabado, os computadores não haviam perdido sua lógica e todos percebiam que o bug do milênio e as outras várias previsões não eram nada mais que balelas. Para mim, nada disso importava. O que contava era o fato de estar começando um novo período letivo. Na verdade, nem era isso o primordial. O meu rebuliço consistia em conviver com uma nova turma. Dos quase 40 colegas de classe, eu só conhecia um.

Cheguei ao colégio, não me lembro dia, nem horário. Fui direto aos murais com os nomes dos alunos e suas respectivas classes. O caminho foi tranqüilo. Eu estava na escola há apenas dois anos e, como era pouco extrovertido, não tinha muitos contatos, por isso, não precisava me preocupar com o fazer o social.

Encontrei meu nome. Vasculhei os outros para ver se tinha companhia. Achei um. Nem precisava ter procurado. O sujeito, meu amigo, logo quando avistei sua alcunha no papel, começou a gritar “Fred, você é da minha sala!”. Aquilo me aliviou tanto. Não o suficiente para impedir que ficasse temeroso. Fomos para a sala.

“Onde fica essa 8ª D?”, perguntei. Hoje vejo como esse questionamento foi idiota. As turmas mudam a cada ano. Seria impossível saber. Só nos restava procurar. Avistamos. Não era difícil. Ao entrar no prédio rosa (nossa escola tinha essa cor) era necessário subir até o terceiro e último andar, virar a esquerda até alcançar o hall que tem bebedouro e banheiros. Enfim, isso não é relevante. Estando no hall, é preciso ignorá-lo e continuar em frente. No meio do caminho ficam as escadarias mais imponentes de todas. Ela é tão cheia de pompa que nos proibiram de passar por ela. Elas conduziam à imagem de uma santa. Eu nunca soube qual o nome da santidade representada. Verdade seja dita, nunca procurei conhecê-la. Ao passar a divina criatura, era só dobrar a primeira direita e adentrar na primeira porta a esquerda.

Meu amigo e eu fizemos este caminho e, na sala, sentamos nas carteiras do meio. Poucas pessoas chegaram naquele dia. Início de ano, a maioria falta na semana de reconhecimento. Com o tempo, eu mudei de lugar. Assentei-me na última carteira da penúltima fileira do lado oposto à porta. Meu amigo permaneceu. Pessoas estranhas me rodearam. Pelo que pude perceber, elas se conheciam. Portanto, deviam pensar “um ser oculto entre nós”. A culpa foi deles. Escolhi meu lugar primeiro. O assento viria a ser um motivo de discórdia. Eu mudaria de lugar novamente. Por incrível que pareça, quem brigou comigo pelo lugar não ficará nele. Pelo contrário, ele ficará ao meu lado até o fim desta série. O meu amigo? Ele não saiu do meio de forma alguma. Ele gostava de ser conhecido. Creio que a localização favorecia isso.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Apropriação

"... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida."

(Clarice Lispector - 'Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres')