terça-feira, 20 de outubro de 2009

No seu lugar

Comecei a ir sozinho ao cinema aos 17 anos. Um ano antes do meu primeiro beijo e quatro antes da minha primeira transa. Eu não me contentava em ir só, eu precisava que o cinema estivesse vazio. Por isso, ia sempre àqueles lugares mais cults que não atraem multidões.

Nunca era o único do lugar, mas, pelo que me lembro, não passava de cinco espectadores. Em um desses dias, eu cheguei um pouco mais cedo para a sessão e esperei dar a hora em um dos bancos perto da bilheteria. No assento ao lado do meu, estava uma pessoa, nem muito nova, nem muito velha. A sua única característica marcante era eu nunca tê-la visto.

Peguei um Pop-Art para me distrair. Nele tinha duas pessoas nuas, mas não era nada explícito. A imagem era borrada. Nesse momento, ouço uma voz perguntado se eu já havia visto a peça. Ah, o cartão era propaganda de teatro. Respondi que não e a fulana continuou o assunto. Não parava de falar.

Chegou a hora de iniciar o filme. Fui para a sala. Percebo que ela se dirigia para o mesmo lugar que eu. Só não foi o mesmo porque creio que ela tinha o mínimo de bom senso e não se sentaria no meu colo. Ficamos em poltronas vizinhas. Dois desconhecidos juntos em uma sala com uma centena de cadeiras disponíveis.

As luzes se apagam, a história começa. Era “Caminho das nuvens”. Sinto um cotovelo roçando em mim. “Que saco. Detesto gente espaçosa”, pensei. Pouco depois, tinha um braço inteiro caído sobre mim e pelo andar da carruagem logo, logo, aquele braço descansaria em minhas coxas. Inclinei-me para o lado oposto do dela. Ela deve ter percebido, pois diminuíram tanto a quantidade quanto a intensidade das investidas.

Finalmente, o filme acabou. Queria ir embora correndo. Fui. Não sozinho. Mesmo depois de inúmeras negativas, ela decidiu me acompanhar ao ponto de ônibus. Até na hora de atravessar a rua ela deu um jeito de pegar em mim. Minha vontade era perguntar: “Para que isso? O sinal está fechado”. Não tive coragem. Penso que eu tinha medo da resposta.

No meu ponto, me despeço, mas ainda não era o bastante. Ia esperar até que meu ônibus passasse. Nesse meio tempo, me convidou para ir até sua ‘escola’. Era professora de matemática para vestibulandos. Na verdade, era estudante de engenharia química. Não aceitei. Depois me deu o telefone de sua escola e pediu que a procurasse. O transporte chegou. Enfim, só.

Não telefonei para ela, sequer guardei o papel. Era bom aluno. Não precisava de mais aulas. Cheguei em casa afoito para contar tudo para minha mãe. Para mim tudo aquilo foi um absurdo. Como alguém tem a ousadia de abordar outra pessoa daquela maneira? Minha mãe concordava com tudo e se mostrava mais estupefata que eu.

Anos depois, vejo que a fulana fez algo tido como normal. As pessoas se interceptam desse modo nas mais variadas situações. Indo a padaria, no caminho do cursinho, no açougue e, se bobear, até em enterro de um ente querido.

Mesmo assim, continuo o mesmo. Vou à escola para estudar, ao ponto de ônibus para pegar um coletivo e chegar a algum lugar, na farmácia para comprar remédios, ou seja, faço as coisas da forma como elas realmente devem ser feitas, segundo meus princípios. Talvez um dia eu mude. Tomara que não.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Apenas

Tudo na vida vem com o tempo. Essa frase é mega clichê, tem um fundo de verdade, mas se olharmos bem ela é muito alienante. Para mim, foi. É muito cômodo esperar aprender as coisas com a calma de quem tem uma infinitude de dias pela frente.

Sempre pensei que a maioria nunca foi parâmetro para nada. Repetia aos quatro cantos a velha e batida frase do Nelson Rodrigues: “Toda maioria é burra”. Acho que no confronto entre pieguices, a primeira ganhou.

Nova fase a ser experimentada, novo grupo. Meus padrões se chocavam com esse novo universo. O que eu fiz? Tomei o que era dos outros e tentei me assemelhar. Só tentei. Não consegui. Então, tomava minhas doses diárias de “tudo vem com o tempo” e continuava buscando ser um deles. Em momento algum me passou pela cabeça que não combinava com meu jeito aquele way of life.

Hoje, após ter caído na real, eu percebo que foi um tempo perdido na esperança de que esse mesmo tempo trouxesse algo. Porém, ele só fez levar. Não foram poucas coisas que me foram tiradas. Mesmo assim ainda é remediável.

Sempre fui muito sozinho. Não daquele jeito triste. Como diz a Maria Bethânia, não sou só de um modo solitário. Dou-me bem comigo. Vou investir nessa relação. Continuarei a realizar outras mais dialógicas. Só que agora, sem a necessidade de ser igual ou a obrigação de concordar com tudo.

sábado, 17 de outubro de 2009

... é muito mais elegante

Há muito tempo não escrevo nada. Não é preguiça, falta de tempo, ou qualquer outro motivo. Ando sem o que falar. A única coisa que me acontece é ficar chateado e empolgado. Várias vezes e em um mesmo dia. Quem não passa por situação parecida? Por isso prefiro nem comentar. Tenho medo de ser repetitivo, mesmo que só o seja para mim mesmo. Enfim, tudo tem passado sem ferir ou fazer cócegas. Mentira! Algumas coisas não têm passado... essas doem.