quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Sem ver a vida passar

Tem acontecido alguma coisa. Não sei o que é. Minha vida carece de algo. Será isso um princípio de depressão? Acho que não. Como diria uma conhecida, com os olhos marejados durante a fala: “Depressão é coisa de rico”.

Então o que será? Afirmar que minha vida não tem emoção é muito plausível. Porém, seria uma tentativa de iludir. Nunca teve muito atrativo. A mansidão dos meus dias não é, de forma alguma, excesso de expectativa. Eu me contentaria com pouco. Por exemplo, adoraria viver o que se passou com minha conhecida.

A casa em que ela morava, quando era jovem, tinha uma janela voltada para a rua. Ela gastava suas tardes debruçada no parapeito vendo as pessoas, os carros e o que mais passasse. Entre os objetos animados e inanimados, ela escolheu um certo rapaz para admirar. Tornou-se condição para um dia agradável assistir o moço cruzar sua janela tragando o cigarro de todos os dias.

Semanas se sucediam. Tudo continuava a funcionar da mesma maneira. Um relógio não conseguiria ser tão constante. Contudo, a essa altura, sonhava a conhecida com o encontrar dos ponteiros. Havia concluído que queria sentir o que até então só via. Era preciso mais contato. Conciliar o notar ao ser notado.

“Me dá um trago”, disse a conhecida. “Toma”, respondeu o rapaz levando o cigarro às mãos da moça. Na verdade, ele não disse nada. Apenas ofereceu o tabaco. Estava imerso na indiferença que nos protege dos outros.

Ela sorveu aquela substância com força e sem jeito. Era um pedaço dele. Uma transgressão para ela. Não por conta de estar consumindo pela primeira vez um tóxico, mas por ter quebrado a linearidade dos seus dias.

Devolveu o cigarro. O homem se foi. Nada aconteceu. Não com relação a seu afeto. Ganhara um vício. Acrescentou-se algo novo a sua vida, embora isso ameaçasse tirar dias de sua existência. Isso para ela pouco importava e ainda hoje não tem relevância. Seus dias mudaram de cor. Atualmente, ela vê a jovem da janela em seu sorriso amarelo-cinza.

Voltando ao meu assunto: o que será? Não sei. Vai ver que é a minha falta de janelas.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A lembrança do meu braço roxo

Chovia. Estávamos eu, meu irmão e meu pai dentro do carro. Corríamos. Meu pai sempre achou que dirigir bem fosse o mesmo que chegar rápido. Rodávamos. E enquanto tudo girava, o carro bateu no automóvel da frente e só parou na mureta do viaduto.

Não houve tempo nem para pensar. Um medo foi trocado por outro. Sem saber por que, após o acontecido, ele voltou a correr. Cada vez mais. Passado algum tempo, eu com a lerdeza comum de uma criança quando confrontada com assunto de adultos, percebi que meu pai estava fugindo do proprietário do automóvel com o qual tinha se chocado. Tudo isso para não pagar pelos danos que causou.

Eu só chorava. Não sei se mais pelo medo ou, simplesmente, por ter percebido que meu pai é todo errado. Na verdade, minha tristeza vinha do conjunto. Na mesma hora me vinha à mente ‘podíamos ter ultrapassado aquele muro e morrido’ e ‘para que tudo isso?’. Se ele não fez o certo, ele tem que arcar com as conseqüências’. Mas não. Ele não pensava assim.

Meu irmão não se manifestava. Ele nunca se pronuncia. Às vezes, penso que é melhor assim. Só não consigo ser dessa maneira. Pelo que posso ver, ele se sai bem nas situações. É mais aceito. Só não sei se é conhecido. Ele não se expõe, eu não o vejo.

No fim das contas, conseguiu fugir. Ninguém anotou a placa. Afinal, meu pai não foi procurado por uma vivalma. O amassado ficou no carro.

Em um outro dia, eu bati no meu irmão. Ele se queixou com meu pai, que logo veio perguntado: “Onde você bateu?”. Eu mostrei que havia sido no braço. Um soco no braço. O golpe conferido a mim foi o mesmo, dado no exato local com intensidade muito maior. Eu era pequeno, ele grande. “Porque se você faz com o outro, tem que agüentar quando este fizer como você. O que você fez não é certo.”. Nesse dia eu soube que o errado só vale para mim.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Meu lado Clarice

Há muito tempo tenho travestido minha tristeza em cansaço. Sempre que alguém me pergunta “você está triste?” eu digo um singelo “É só cansaço” acompanhado de um leve sorriso no rosto. Pelo que me lembro, isso começou no dia em que decidi separar os problemas objetivos dos subjetivos. Os primeiros são aqueles que todas as pessoas ,em qualquer lugar do mundo, que os vivenciassem, com certeza, sofreriam. Fome, frio, dor são alguns dos ‘objetivos’. Os outros são coisas da nossa cabeça. Caso outras pessoas passassem por ele, poderiam dar nome diferente ou lidar de forma distinta, sem grandes transtornos.

Desde então, me proíbo de ficar chateado com os problemas subjetivos, pois os tomei como algo não real. Eu do alto do meu pessimismo, arrumei uma maneira de ser otimista. “Ah, isso não é um obstáculo. Fique bem”. Essa frase sempre vem a minha cabeça nas horas de fraqueza. “Não deixe as pessoas perceberem”. É outra que me digo muito.

Hoje, exatamente agora, percebo como tenho pouquíssimos problemas objetivos. Na verdade, nenhum. É aqui que mora a questão principal. Eu só lamentaria se houvesse algo real. Nunca há. Não me entristeço.

Não sei se é uma visão comum, se todos pensam como eu, mas encaro o sofrer (moderadamente) como um desabafo, um jeito de extravasar o que há de ruim ou incômodo. Não tenho escape. Não tenho problemas. E também não sou pura satisfação. O que eu sou com isso tudo? Essas regras de proceder, para que servem?

Sinceramente, não sei. Teria que pensar muito para descobrir. São coisas tão complexas e demandariam tanto trabalho. Não quero fazer isso agora. Na verdade, não desejo nada por agora. Tenho estado tão cansado.

Seus cabelos permanecem os mesmos, mas seus filhos...

Rapaz baixo, moreno, cabelo duro e franzino. Antes de falar sobre o dono dessas qualidades é preciso falar sobre a sorte que o levou a tê-las. Há anos, sua mãe, jovem felizarda por ser cortejada por um moço bem apanhado, cabelos lisos e loiros, bom porte, olhos verdes e boa condição de vida, sofria por motivos bastante importantes para ela na época, seus cabelos ressecados. Um de seus sonhos, por incrível que pareça, era conseguir sachês de creme rinse (É! Sachê! Na época não existiam os potes) para tratar suas madeixas. Para pessoa de pouca renda como ela, sachês eram artigos luxuosíssimos.

Eis que em um surpreendente dia seu pai chega com essas preciosidades e, no mesmo momento, ela os pega e aplica sobre seus cabelos maltratados e quebradiços. Mas essa graça não chegou sozinha, com ela veio seu cortês pretendente. Infeliz surpresa. Ela não sabia o que fazer. Deixá-lo ver seus cabelos gosmentos seria uma tragédia. Tirar o creme seria o fim dos tempos. Optou pela tragédia. Viram-se, e assim que ele esboçou movimento para um abraço ela fugiu. E o pobre belo rapaz que não havia presenciado nenhuma prova cabal do amor daquela garota, tomou aquilo como atestado do sentimento contrário. Nunca mais apareceu, deixando a moça dos cabelos tratados sozinha e amargurada.

Porém seus novos fios logo atraíram um simplório rapaz, baixo, moreno, cabelo duro, franzino e futuramente careca. Constituíram família tirando do rapaz do início dessa história, seu filho, a oportunidade de ter uma beleza ideal e o deram a dúvida de uma calvície vindoura.

Caetaneável

Das coisas que quis, uma das poucas a persistirem é a vontade de ser inspiração para uma música de Caetano. Desde criança, quase um pré-adolescente, tenho esse desejo que de certa forma mostra o meu amadurecimento.

Nessa época, como achava impossível conhecer o Caetano e, conseqüentemente, ele compor algo para mim, eu tinha convicção que ao alcançar a maioridade tatuaria um dragão no braço. Assim, eu roubaria a canção para mim. No entanto, por ser jovem e ter ainda princípios morais muito rígidos me detive no ‘menino vadio’. Como assim Caetano? Eu até estava disposto a ficar com corpo aberto no espaço. Vadio eu não era, nem tinha idade para isso.

Tive que trocar de música, estava em outro contexto, a flor do meu sexo já havia se aberto para o universo e todas as dúvidas que isso pode gerar foram suscitadas. Eu só queria algo ou alguém para me ajudar a dar sentido aos mundos. Não um significado qualquer, mas um que fosse bonito. Contudo, não consegui me adaptar à idéia de me considerar um Deus. A humildade, às vezes, se impõe a mim.

Meio cansado de querer usurpar a música dos outros, decidi querer uma só para mim, sob medida. Já estava adulto e, de certa maneira, com personalidade delimitada. Não precisava mais de modelos para me enquadrar. Necessitava de uma letra que falasse de mim e tudo que eu quis. Muitos acham essa vontade bobeira, talvez ela nunca se realize. Ou não.

Eu-público

Linha constante. Para um cardiograma, ausência de vida. Em um sismógrafo, terra firme. Esse é o Frederico que para os amigos é sempre o Fred, mesmo quando em companhia de diversos homônimos. Nunca inho ou ão, na medida - sem que isso seja bom ou ruim.

Ele gosta de falar, o faz. Porém se restringe a tudo aquilo que não é primordial. Não gosta de dizer, não diz. Analisa-se toda noite para saber se ao longo do dia deixou escapar alguma coisa que denuncie aspectos essenciais de si. Afinal, ser desconhecido quando se quer é ser bem sucedido. O contrário é frustração.

A sua história não preenche as folhas de um livro biográfico, nem mesmo uma página solta, mas ele não se importa. Aliás, tamanho é uma coisa que não o interessa, pois resumos de novelas, letras de músicas, poesias também não são grandes e mesmo pequenas, essas coisas foram capazes de ocupar a sua vida até aqui.

Vida longa

Já comecei inúmeros diários. Nenhum foi para frente. Eu sei a razão disso. Os dias legais, aqueles bons de contar, são poucos. Nunca formam uma seqüência. É um hoje, outro daqui três meses.

As coisas ruins, que também são boas de falar, não são tantas. As que existem eu não conto. Para que vou compartilhar com o outro algo que não me faz bem? É sobrecarregar ele à toa. Se for para ficar para baixo, que seja apenas um.

Estou com uma vontade tão grande de escrever algo duradouro, ultimamente. Porém, pelo que já disse, desanimo ao pensar que não vai para frente. Não quero começar mais uma coisa fadada ao esquecimento. Ao meu esquecimento. Dos outros não espero nem o reconhecimento. São coisas tão minhas, um vocabulário tão meu que nem me preocupo em dividir minhas visões. Se outros virem, podem considerar que não possuímos o mesmo léxico. Além do mais, não quero me preocupar em juntar lé com cré.

Para conseguir a tão buscada continuidade, resolvi não falar dos dias que se passam. Vou me dedicar aos há muito já passados. Aqueles responsáveis pelos meus raros ares de nostalgia. Por isso, optei pelo nome ‘Nexos e Anexos’, pois tratarei aqui de tudo aquilo responsável pelos sentidos dados a minha vida, com a ajuda de todos aqueles que participaram dela. Serão recortes do tempo, vistos em outro momento. Nem menos feliz, nem mais triste.