sábado, 24 de janeiro de 2009

O dia em que fui mais feliz: ele

Sempre quis daquele jeito. Com coisas a acrescentar e outras a aparar: nele. Tudo começou meio torto. Discussões sem fundamento por querermos sentar no mesmo lugar. Eram brigas calorosas e inúteis. A princípio, não gostava dele. Perfeito. É comum que eu goste de quem não me apetece.

Mudei de lugar. Resolvi ceder às suas tentativas. Finalmente ele poderia ter o que queria. Ele foi para o meu lado. Hoje penso que ele e eu não queríamos o espaço do outro. Apenas desejávamos o espaço entre nós. Fomos muito amigos. Tanto que, quando o colégio entrou em greve, eu ia às aulas só para desfrutar de sua companhia.

Ele tinha muitos amigos. Eu só tinha ele. Existiam outros caras muito próximos e que eu prezava muito. Porém nenhum tinha um buraco no meio do peito, ou carregava um rolo de papel higiênico na mochila, nem se banhava em desodorante barato a cada 15 minutos ou sequer fazia rodízio de livros didáticos comigo para que não carregássemos peso demais. Cada um levava o de uma matéria e líamos juntos. E o mais importante, ninguém me disse essas duas frases:


- Confia em mim. Pode marcar a questão c. Eu não te passaria cola errada.

- Não chora. Eu estou aqui ainda. – a razão dessa frase melosa foi o meu choro copioso no último dia de aula.

Na época, ele me falou que iria fazer a prova de seleção do Cefet e do Coltec. Eu sabia que passaria. Resolvi tentar também, mesmo sem querer fazer um curso técnico. Estudei muito. Todos os dias. Em determinado momento, eu até acreditei que aquele era meu sonho: ser um técnico em eletrônica. Fiz as provas. Não passei. Ele conseguiu se dar bem em ambas.

O resultado saiu dias antes do Natal. Nenhum presente mudou meu ânimo. Sinceramente, nunca uma reprovação tinha me deixado tão mal. Meu ano aconteceria sem ele. Eu desabei em lágrimas no meio da ceia. Por falar em choro, eu, nos primeiros seis meses do ano seguinte, derramava prantos, todos os dias, minutos antes de ir para a escola.

O tempo foi passando. Tentamos manter o contato. Porém, só fizemos nos distanciar. Uma das grandes perdas da minha vida. Outros chegados surgiram e me fizeram muito bem. Já amigos, acho que não mais tive. Na verdade, até existiram (existem), mas eu não quis dar o título formalmente. Porque depois dele, eu só quis daquele jeito.

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