Tudo é relativo. Mesmo. Sempre me achei uma pessoa muito aberta às diferenças. E realmente sou. Essa percepção começou a surgir quando iniciei minha empreitada no mundo da antropologia. Foi uma época de encantamento. Relativizava tudo, sem exceção. Com o passar do tempo, após a segunda, a terceira disciplina... reparei que tinha perdido o senso de certo ou errado. Para mim tudo era um oba-oba. “Isso é errado” dizia fulano e eu, do alto do meu ‘relativismo cultural’, indagava - “Errado em relação a quem?”
Essa fase foi importantíssima, mas hoje eu vejo que é incabível ser assim. As coisas precisam de parâmetros. E mesmo na época em que eu adotava essa postura ‘world peace’ era possível perceber o quanto eu estava sendo incoerente. Por exemplo, em uma aula de semiótica a professora, ao ser bombardeada por milhares de perguntas feitas por mim, disse: “É preciso abstrair. Não podemos esperar definições de tudo.” Ao escutar aquilo uma revolta tomou conta de mim (tenho uma grande facilidade de me exaltar contra os docentes) e eu rebati energicamente – “Abstrair é importante. O problema é que não consigo aprender sem algumas definições”.
Como eu podia pedir modelos se o meu relativismo me levava a destruir todos os conceitos? Se era tudo tão possível, por que eu não aceitava a total abstração daquela mulher? Hoje eu vejo que eu era pouquíssimo relativista. Um iniciante. A grande questão está em relativizar o relativo e perceber que existem coisas concretas, ou pelo menos convenções concretas.
Continuo aceitando e defendendo (algumas) diferenças. Com menos afinco, admito. Não sei se minha cabeça mudou ou se foram as situações, mas é fato que tenho vivenciado muito mais coisas ‘erradas’. Até poderia olhar para elas e concluir que quem as fez teve seus motivos. Não, não quero agir assim. Quero me dar o direito de considerar aquilo incorreto - para mim - e falar em alto e bom som que não faria as coisas daquela maneira. Isso faz de mim um santo, um careta, um chato? Não sei. Penso que não. Cometo deslizes também e, em momento algum, espero que relativizem meu lado. Portanto, desejo que não esperem, mais, isso de mim.
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