A crise levou meu salário embora. Dizem que um dia ele chega. Só resta esperar. O carnaval, porém, não aguardou nem mais uma semana. Está aí. Hoje já tem aquela galera desfilando em São Paulo. Sem contar o povo que está pegando o caminho para deixar a roça. E eu? Fico aqui.
Acho que o mais interessante a se fazer em BH nesses dias é tomar sorvete. Vou fazer isso todos os dias. Melhor não, tenho que economizar o pouco dinheiro que me resta. Ser imprudente pode me obrigar a pedir dinheiro emprestado para a minha família, para um agiota ou até para um banco. Tentarei pensar em um plano B.
Posso repetir o carnaval de 2007 em que chamei minha prima pra fazer um pic-nic na pracinha perto aqui de casa. Foi um banquete. Levamos brigadeiro, refresco de laranja e biscoito maisena. Também reservamos uma cartela de dramin para tomar mais a noitinha e dormir até o fim do próximo dia. Tudo isso para ver se o tempo passava mais depressa.
Chegamos à praça, já era tarde. Montamos a mesa. Consideraríamos aquilo uma fartura se na nossa frente não tivesse uma pizzaria e churrascaria cheia de gente se matando de tanto comer. Nossa visão nunca foi tão aguçada. Eu via o catupiri se desmanchando na boca das pessoas. Eu parava de olhar, mas não tinha jeito. Minha imaginação projetava aquelas cenas na frente dos nossos olhos. Nem podíamos pensar em entrar naquele lugar. Tudo era caro. Assim como hoje, não tínhamos um centavo.
Ah, onde estávamos não tinha iluminação. Comiamos no escuro. De repente, parece que Deus resolveu fazer um remake das pragas que ele impôs aos egípcios, o ambiente se encheu de pernilongos. Fomos esvaziados.
Saímos da praça. Nosso banquete não durou mais que 45 minutos. Nos dirigimos para a casa dela. Costumo andar depressa. Contudo, nesse dia eu controlei meus passos, pois ela me repreendeu dizendo que daquele jeito chegaríamos muito rápido. Era melhor aproveitarmos a caminhada já que era a única coisa que tínhamos para fazer.
Na casa dela, nós começamos a ver TV. Era hora dos desfiles. Murchamos ainda mais. Estávamos sendo intensamente bombardeados com a felicidade alheia. Desligamos. Chegou a hora de uma decisão drástica. A única saída era tomar aquela substância que nos salvaria de tudo aquilo (o dramin). Ela foi a primeira a engolir, não antes de jurar que os próximos carnavais seriam diferentes. Eu o fiz logo em seguida, reiterando sua promessa.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Joguete
Nosso único objetivo era a conversa fiada. Ficávamos horas a fio jogando palavras de um para o outro. Ora falávamos bobeiras, ora coisas sérias. Tudo sem muita importância, porém pensávamos nesse tudo com bastante apego. Nossa vida era analisada, revisada e tínhamos total liberdade de recriminar ou louvar a atitude do outro.
Pelo que eu me lembro, nós nunca brigamos. Como ela mesma diz, nossa relação existe desde o nascimento (eu vim depois). Ela chama o nosso envolvimento de contrato. A assinatura do acordo foi feita há 23 anos. Rescindi-lo seria caríssimo. Essa não é a intenção.
Somos primos. Alguns acham que namorados. Na verdade, somos só primos. E amigos. Mais amigos que primos. Para não gerar muita polêmica, somos os dois. Ela não curte muito o resto da família. Eu nem um pouco. A família meio que nos odeia. Um tipo de ódio cheio de amor.
Nossas conversas, as vezes, chegavam a conclusões. Raríssimo. Dessas constatações, a que mais me lembro diz respeito ao jogo queimada.
- Eu era muito bom na queimada. Fugia de todas as bolas. – eu disse.
- Também era. – ela se empolga
- Nossa, eu era um dos primeiros a serem escolhidos pelo capitão do time.
- Eu gostava de ser a capitã. Sempre gostei de selecionar o pessoal. É bom pra montar um time forte.
- Ah, eu prefiro saber que gostam do que faço. Por isso, ficava no banco para ser apenas chamado.
- Aqui, você tinha mania de jogar tanto, mas tanto que chegava uma hora que não tinha mais força para jogar? – ela me pergunta.
- Ih, direto. Eu continuava jogando mesmo querendo parar.
- É... tem uma hora que cansa.
- É.
- Aí eu pedia altas. - ela se entrega.
Não sei a razão, só sei que nesse momento nos calamos e só ficamos olhando ao nosso redor até que eu soltei um pedaço da minha sabedoria juvenil.
- A vida também cansa. Acho que eu quero altas.
- Tô de altas – ela se apressa.
Rimos demoradamente e, no fim, continuamos a jogar mesmo querendo parar.
P.S.: altas é uma forma de sair do jogo sem ser um desligamento definitivo. Quem pede altas sempre volta a jogar. Portanto, em hipótese alguma pensamos em morrer.
Pelo que eu me lembro, nós nunca brigamos. Como ela mesma diz, nossa relação existe desde o nascimento (eu vim depois). Ela chama o nosso envolvimento de contrato. A assinatura do acordo foi feita há 23 anos. Rescindi-lo seria caríssimo. Essa não é a intenção.
Somos primos. Alguns acham que namorados. Na verdade, somos só primos. E amigos. Mais amigos que primos. Para não gerar muita polêmica, somos os dois. Ela não curte muito o resto da família. Eu nem um pouco. A família meio que nos odeia. Um tipo de ódio cheio de amor.
Nossas conversas, as vezes, chegavam a conclusões. Raríssimo. Dessas constatações, a que mais me lembro diz respeito ao jogo queimada.
- Eu era muito bom na queimada. Fugia de todas as bolas. – eu disse.
- Também era. – ela se empolga
- Nossa, eu era um dos primeiros a serem escolhidos pelo capitão do time.
- Eu gostava de ser a capitã. Sempre gostei de selecionar o pessoal. É bom pra montar um time forte.
- Ah, eu prefiro saber que gostam do que faço. Por isso, ficava no banco para ser apenas chamado.
- Aqui, você tinha mania de jogar tanto, mas tanto que chegava uma hora que não tinha mais força para jogar? – ela me pergunta.
- Ih, direto. Eu continuava jogando mesmo querendo parar.
- É... tem uma hora que cansa.
- É.
- Aí eu pedia altas. - ela se entrega.
Não sei a razão, só sei que nesse momento nos calamos e só ficamos olhando ao nosso redor até que eu soltei um pedaço da minha sabedoria juvenil.
- A vida também cansa. Acho que eu quero altas.
- Tô de altas – ela se apressa.
Rimos demoradamente e, no fim, continuamos a jogar mesmo querendo parar.
P.S.: altas é uma forma de sair do jogo sem ser um desligamento definitivo. Quem pede altas sempre volta a jogar. Portanto, em hipótese alguma pensamos em morrer.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Pau, pau ... pedra, pedra
Tudo é relativo. Mesmo. Sempre me achei uma pessoa muito aberta às diferenças. E realmente sou. Essa percepção começou a surgir quando iniciei minha empreitada no mundo da antropologia. Foi uma época de encantamento. Relativizava tudo, sem exceção. Com o passar do tempo, após a segunda, a terceira disciplina... reparei que tinha perdido o senso de certo ou errado. Para mim tudo era um oba-oba. “Isso é errado” dizia fulano e eu, do alto do meu ‘relativismo cultural’, indagava - “Errado em relação a quem?”
Essa fase foi importantíssima, mas hoje eu vejo que é incabível ser assim. As coisas precisam de parâmetros. E mesmo na época em que eu adotava essa postura ‘world peace’ era possível perceber o quanto eu estava sendo incoerente. Por exemplo, em uma aula de semiótica a professora, ao ser bombardeada por milhares de perguntas feitas por mim, disse: “É preciso abstrair. Não podemos esperar definições de tudo.” Ao escutar aquilo uma revolta tomou conta de mim (tenho uma grande facilidade de me exaltar contra os docentes) e eu rebati energicamente – “Abstrair é importante. O problema é que não consigo aprender sem algumas definições”.
Como eu podia pedir modelos se o meu relativismo me levava a destruir todos os conceitos? Se era tudo tão possível, por que eu não aceitava a total abstração daquela mulher? Hoje eu vejo que eu era pouquíssimo relativista. Um iniciante. A grande questão está em relativizar o relativo e perceber que existem coisas concretas, ou pelo menos convenções concretas.
Continuo aceitando e defendendo (algumas) diferenças. Com menos afinco, admito. Não sei se minha cabeça mudou ou se foram as situações, mas é fato que tenho vivenciado muito mais coisas ‘erradas’. Até poderia olhar para elas e concluir que quem as fez teve seus motivos. Não, não quero agir assim. Quero me dar o direito de considerar aquilo incorreto - para mim - e falar em alto e bom som que não faria as coisas daquela maneira. Isso faz de mim um santo, um careta, um chato? Não sei. Penso que não. Cometo deslizes também e, em momento algum, espero que relativizem meu lado. Portanto, desejo que não esperem, mais, isso de mim.
Essa fase foi importantíssima, mas hoje eu vejo que é incabível ser assim. As coisas precisam de parâmetros. E mesmo na época em que eu adotava essa postura ‘world peace’ era possível perceber o quanto eu estava sendo incoerente. Por exemplo, em uma aula de semiótica a professora, ao ser bombardeada por milhares de perguntas feitas por mim, disse: “É preciso abstrair. Não podemos esperar definições de tudo.” Ao escutar aquilo uma revolta tomou conta de mim (tenho uma grande facilidade de me exaltar contra os docentes) e eu rebati energicamente – “Abstrair é importante. O problema é que não consigo aprender sem algumas definições”.
Como eu podia pedir modelos se o meu relativismo me levava a destruir todos os conceitos? Se era tudo tão possível, por que eu não aceitava a total abstração daquela mulher? Hoje eu vejo que eu era pouquíssimo relativista. Um iniciante. A grande questão está em relativizar o relativo e perceber que existem coisas concretas, ou pelo menos convenções concretas.
Continuo aceitando e defendendo (algumas) diferenças. Com menos afinco, admito. Não sei se minha cabeça mudou ou se foram as situações, mas é fato que tenho vivenciado muito mais coisas ‘erradas’. Até poderia olhar para elas e concluir que quem as fez teve seus motivos. Não, não quero agir assim. Quero me dar o direito de considerar aquilo incorreto - para mim - e falar em alto e bom som que não faria as coisas daquela maneira. Isso faz de mim um santo, um careta, um chato? Não sei. Penso que não. Cometo deslizes também e, em momento algum, espero que relativizem meu lado. Portanto, desejo que não esperem, mais, isso de mim.
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