Fechei a porta e as janelas. Nem precisava disso. Não tem ninguém em casa. Parece que fazendo isso eu oficializo que estou sozinho. De repente, parece que estou solitário porque quero. Nada de roupas. A falta de repreensão ou olhares escandalizados enfatiza ainda mais o fato de estar só.
Ao meu lado esquerdo tem um espelho grande. Ultimamente, ele só tem me mostrado feio. Segundo ele falta muita coisa e sobram outras tantas. Ele nunca me incentiva. A direita tem uma TV de 21 polegadas que quase nunca é ligada. Minha mãe a colocou aqui porque costumo ficar muito tempo assistindo novelas e seriados. Desde então, as horas gastas com esse tipo de programa diminuíram muito. Ela tem feito às vezes de espelho. É possível ver meu reflexo através dela. Minha imagem nela não é tão ruim. Por ter fundo escuro, ela omite os defeitos que o espelho destaca. Eu sou praticamente um vulto. Ao contrário do que muitos dizem, não creio que a televisão nos iluda, engane. Só considero isso verdade quando ela está desligada.
Fora isso, não tem mais nada. É tudo tão sem graça. Alguém já disse que o quarto é a cara de seu dono? Deve ter dito. Não seria o primeiro. Nunca sou. Meia jogada no chão, mochila embaixo da cama, tênis na janela, roupas sujas e amarrotadas esperando serem utilizadas mais um dia porque não são consideradas tão impróprias para o uso. Isso pode parecer desorganização, mas não é. É adaptação. Não coloque porcos onde não for chiqueiro. Deixe-me onde não há lógica. Embora, eu tente racionalizar tudo que vivo, no meu quarto eu tento viver a vontade. Por pior que pareçam, as coisas aqui são espontâneas.
O sofrimento é brando. O espelho me aponta, mas por não constituir um outro, ser apenas resultado de mim mesmo, ele não me faz mal. Não tanto quanto eles (os outros). Além disso, as pessoas que aqui entram não me enxergam. Felizmente, isso não ocorre devido ao fato de eu não ter importância, mas sim por não ser possível fazê-lo através de tanta ‘desorganização’.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
domingo, 25 de janeiro de 2009
De filho para mãe
Numa noite qualquer, um jovem cristão chega para a sua mãe acometido de uma tristeza saída de não se sabe onde e diz:
- Por que Deus não faz o que eu peço?
Ela responde:
- Ele faz sim. O que você quer?
- Ser mudado.
- Para que?
- Não quero mais ser errado.
Ela, sem saber do que se tratava, rebate.
- Mas você não é...
- Sou sim.
- Enfim, meu filho, dê tempo ao tempo. Deus só faz as coisas na hora Dele.
Alguns anos se passaram, nada havia se alterado. Os pedidos não foram atendidos e o menino, já homem, se sentia menos transviado. Já sua mãe não pensava como antes.
- Meu filho, você está errado.
- Eu sei, mãe. Sempre te disse.
- Você tem que mudar.
- Sim, tenho. Mas o melhor a fazer é esperar... aguardar o momento em que Deus decidir fazer a transformação.
Assim ela fez e faz. Posso vê-la ajoelhada em seu quarto, com a Bíblia ao alcance das mãos a pedir que seja rápido.
- Por que Deus não faz o que eu peço?
Ela responde:
- Ele faz sim. O que você quer?
- Ser mudado.
- Para que?
- Não quero mais ser errado.
Ela, sem saber do que se tratava, rebate.
- Mas você não é...
- Sou sim.
- Enfim, meu filho, dê tempo ao tempo. Deus só faz as coisas na hora Dele.
Alguns anos se passaram, nada havia se alterado. Os pedidos não foram atendidos e o menino, já homem, se sentia menos transviado. Já sua mãe não pensava como antes.
- Meu filho, você está errado.
- Eu sei, mãe. Sempre te disse.
- Você tem que mudar.
- Sim, tenho. Mas o melhor a fazer é esperar... aguardar o momento em que Deus decidir fazer a transformação.
Assim ela fez e faz. Posso vê-la ajoelhada em seu quarto, com a Bíblia ao alcance das mãos a pedir que seja rápido.
sábado, 24 de janeiro de 2009
O dia em que fui mais feliz: ele
Sempre quis daquele jeito. Com coisas a acrescentar e outras a aparar: nele. Tudo começou meio torto. Discussões sem fundamento por querermos sentar no mesmo lugar. Eram brigas calorosas e inúteis. A princípio, não gostava dele. Perfeito. É comum que eu goste de quem não me apetece.
Mudei de lugar. Resolvi ceder às suas tentativas. Finalmente ele poderia ter o que queria. Ele foi para o meu lado. Hoje penso que ele e eu não queríamos o espaço do outro. Apenas desejávamos o espaço entre nós. Fomos muito amigos. Tanto que, quando o colégio entrou em greve, eu ia às aulas só para desfrutar de sua companhia.
Ele tinha muitos amigos. Eu só tinha ele. Existiam outros caras muito próximos e que eu prezava muito. Porém nenhum tinha um buraco no meio do peito, ou carregava um rolo de papel higiênico na mochila, nem se banhava em desodorante barato a cada 15 minutos ou sequer fazia rodízio de livros didáticos comigo para que não carregássemos peso demais. Cada um levava o de uma matéria e líamos juntos. E o mais importante, ninguém me disse essas duas frases:
- Confia em mim. Pode marcar a questão c. Eu não te passaria cola errada.
- Não chora. Eu estou aqui ainda. – a razão dessa frase melosa foi o meu choro copioso no último dia de aula.
Na época, ele me falou que iria fazer a prova de seleção do Cefet e do Coltec. Eu sabia que passaria. Resolvi tentar também, mesmo sem querer fazer um curso técnico. Estudei muito. Todos os dias. Em determinado momento, eu até acreditei que aquele era meu sonho: ser um técnico em eletrônica. Fiz as provas. Não passei. Ele conseguiu se dar bem em ambas.
O resultado saiu dias antes do Natal. Nenhum presente mudou meu ânimo. Sinceramente, nunca uma reprovação tinha me deixado tão mal. Meu ano aconteceria sem ele. Eu desabei em lágrimas no meio da ceia. Por falar em choro, eu, nos primeiros seis meses do ano seguinte, derramava prantos, todos os dias, minutos antes de ir para a escola.
O tempo foi passando. Tentamos manter o contato. Porém, só fizemos nos distanciar. Uma das grandes perdas da minha vida. Outros chegados surgiram e me fizeram muito bem. Já amigos, acho que não mais tive. Na verdade, até existiram (existem), mas eu não quis dar o título formalmente. Porque depois dele, eu só quis daquele jeito.
Mudei de lugar. Resolvi ceder às suas tentativas. Finalmente ele poderia ter o que queria. Ele foi para o meu lado. Hoje penso que ele e eu não queríamos o espaço do outro. Apenas desejávamos o espaço entre nós. Fomos muito amigos. Tanto que, quando o colégio entrou em greve, eu ia às aulas só para desfrutar de sua companhia.
Ele tinha muitos amigos. Eu só tinha ele. Existiam outros caras muito próximos e que eu prezava muito. Porém nenhum tinha um buraco no meio do peito, ou carregava um rolo de papel higiênico na mochila, nem se banhava em desodorante barato a cada 15 minutos ou sequer fazia rodízio de livros didáticos comigo para que não carregássemos peso demais. Cada um levava o de uma matéria e líamos juntos. E o mais importante, ninguém me disse essas duas frases:
- Confia em mim. Pode marcar a questão c. Eu não te passaria cola errada.
- Não chora. Eu estou aqui ainda. – a razão dessa frase melosa foi o meu choro copioso no último dia de aula.
Na época, ele me falou que iria fazer a prova de seleção do Cefet e do Coltec. Eu sabia que passaria. Resolvi tentar também, mesmo sem querer fazer um curso técnico. Estudei muito. Todos os dias. Em determinado momento, eu até acreditei que aquele era meu sonho: ser um técnico em eletrônica. Fiz as provas. Não passei. Ele conseguiu se dar bem em ambas.
O resultado saiu dias antes do Natal. Nenhum presente mudou meu ânimo. Sinceramente, nunca uma reprovação tinha me deixado tão mal. Meu ano aconteceria sem ele. Eu desabei em lágrimas no meio da ceia. Por falar em choro, eu, nos primeiros seis meses do ano seguinte, derramava prantos, todos os dias, minutos antes de ir para a escola.
O tempo foi passando. Tentamos manter o contato. Porém, só fizemos nos distanciar. Uma das grandes perdas da minha vida. Outros chegados surgiram e me fizeram muito bem. Já amigos, acho que não mais tive. Na verdade, até existiram (existem), mas eu não quis dar o título formalmente. Porque depois dele, eu só quis daquele jeito.
domingo, 18 de janeiro de 2009
O dia em que fui mais feliz: a tarada
Desengonçada. Não há palavra melhor para caracterizar essa pessoa que com o tempo viria a ser minha amiga. Ela era muito alta, cabelos compridos e desgrenhados, pele oleosa, óculos fundo de garrafa e nunca vi um short de moletom cair tão mal no corpo de alguém quanto acontecia com ela.
Sempre muito séria e fechada em seu grupinho, só ouvia os bochichos, as gargalhadas que davam. Não me intrometia. A princípio, eu ignorava tudo. Não procurava me relacionar intensamente. Além disso, eu preferia observar. Não sei por que, mas sempre senti nessa menina um potencial sexual incrível. Sabe aquelas freiras de filme que se comportam como santas, no entanto, escondem o diabo por baixo do hábito? Ela era assim para mim.
Sempre via quando ela observava o volume entre as calças dos meninos e, discretamente, (pelo menos, ela pensava que era assim) comentava com suas amigas que apenas riam. Nossa, ela era daquelas que perdiam o rumo ao ouvir a palavra (me perdoem o vocabulário) PINTO.
Tanto é verdade que nosso primeiro contato envolveu o meu membro. De forma indireta, é claro. Ele permaneceu guardado em minha roupa de baixo ‘100% algodão’. Ele apenas foi evocado por ela. Nessa época, eu tinha a mania de manter a mochila no colo, mesmo após sentar a carteira. Sem que eu soubesse, ela se incomodava com isso. Esse desconforto fez com que ela puxasse uma conversa.
- O que você esconde sob essa bolsa? - perguntou ela
- Oi? – eu, sem entender.
- Alguma coisa você deve esconder debaixo dessa mochila? Não tem outro motivo para mantê-la aí o tempo todo.
- Ahhhh, não tem nada.
- Deve ser grande, né?
- Nó, imenso. Acho melhor nem mostrar. - respondi entrando na brincadeira.
A partir desse momento, ficamos amigos. Ela me convidou para sua festa de 15 anos. Segundo ela, eu só me aproximei para poder ter acesso a sua festa de debutante. É evidente que isso é uma mentira. Nossa afinidade é mais embaixo.
Sempre muito séria e fechada em seu grupinho, só ouvia os bochichos, as gargalhadas que davam. Não me intrometia. A princípio, eu ignorava tudo. Não procurava me relacionar intensamente. Além disso, eu preferia observar. Não sei por que, mas sempre senti nessa menina um potencial sexual incrível. Sabe aquelas freiras de filme que se comportam como santas, no entanto, escondem o diabo por baixo do hábito? Ela era assim para mim.
Sempre via quando ela observava o volume entre as calças dos meninos e, discretamente, (pelo menos, ela pensava que era assim) comentava com suas amigas que apenas riam. Nossa, ela era daquelas que perdiam o rumo ao ouvir a palavra (me perdoem o vocabulário) PINTO.
Tanto é verdade que nosso primeiro contato envolveu o meu membro. De forma indireta, é claro. Ele permaneceu guardado em minha roupa de baixo ‘100% algodão’. Ele apenas foi evocado por ela. Nessa época, eu tinha a mania de manter a mochila no colo, mesmo após sentar a carteira. Sem que eu soubesse, ela se incomodava com isso. Esse desconforto fez com que ela puxasse uma conversa.
- O que você esconde sob essa bolsa? - perguntou ela
- Oi? – eu, sem entender.
- Alguma coisa você deve esconder debaixo dessa mochila? Não tem outro motivo para mantê-la aí o tempo todo.
- Ahhhh, não tem nada.
- Deve ser grande, né?
- Nó, imenso. Acho melhor nem mostrar. - respondi entrando na brincadeira.
A partir desse momento, ficamos amigos. Ela me convidou para sua festa de 15 anos. Segundo ela, eu só me aproximei para poder ter acesso a sua festa de debutante. É evidente que isso é uma mentira. Nossa afinidade é mais embaixo.
O dia em que fui mais feliz: o início
Era 2000. O mundo não tinha acabado, os computadores não haviam perdido sua lógica e todos percebiam que o bug do milênio e as outras várias previsões não eram nada mais que balelas. Para mim, nada disso importava. O que contava era o fato de estar começando um novo período letivo. Na verdade, nem era isso o primordial. O meu rebuliço consistia em conviver com uma nova turma. Dos quase 40 colegas de classe, eu só conhecia um.
Cheguei ao colégio, não me lembro dia, nem horário. Fui direto aos murais com os nomes dos alunos e suas respectivas classes. O caminho foi tranqüilo. Eu estava na escola há apenas dois anos e, como era pouco extrovertido, não tinha muitos contatos, por isso, não precisava me preocupar com o fazer o social.
Encontrei meu nome. Vasculhei os outros para ver se tinha companhia. Achei um. Nem precisava ter procurado. O sujeito, meu amigo, logo quando avistei sua alcunha no papel, começou a gritar “Fred, você é da minha sala!”. Aquilo me aliviou tanto. Não o suficiente para impedir que ficasse temeroso. Fomos para a sala.
“Onde fica essa 8ª D?”, perguntei. Hoje vejo como esse questionamento foi idiota. As turmas mudam a cada ano. Seria impossível saber. Só nos restava procurar. Avistamos. Não era difícil. Ao entrar no prédio rosa (nossa escola tinha essa cor) era necessário subir até o terceiro e último andar, virar a esquerda até alcançar o hall que tem bebedouro e banheiros. Enfim, isso não é relevante. Estando no hall, é preciso ignorá-lo e continuar em frente. No meio do caminho ficam as escadarias mais imponentes de todas. Ela é tão cheia de pompa que nos proibiram de passar por ela. Elas conduziam à imagem de uma santa. Eu nunca soube qual o nome da santidade representada. Verdade seja dita, nunca procurei conhecê-la. Ao passar a divina criatura, era só dobrar a primeira direita e adentrar na primeira porta a esquerda.
Meu amigo e eu fizemos este caminho e, na sala, sentamos nas carteiras do meio. Poucas pessoas chegaram naquele dia. Início de ano, a maioria falta na semana de reconhecimento. Com o tempo, eu mudei de lugar. Assentei-me na última carteira da penúltima fileira do lado oposto à porta. Meu amigo permaneceu. Pessoas estranhas me rodearam. Pelo que pude perceber, elas se conheciam. Portanto, deviam pensar “um ser oculto entre nós”. A culpa foi deles. Escolhi meu lugar primeiro. O assento viria a ser um motivo de discórdia. Eu mudaria de lugar novamente. Por incrível que pareça, quem brigou comigo pelo lugar não ficará nele. Pelo contrário, ele ficará ao meu lado até o fim desta série. O meu amigo? Ele não saiu do meio de forma alguma. Ele gostava de ser conhecido. Creio que a localização favorecia isso.
Cheguei ao colégio, não me lembro dia, nem horário. Fui direto aos murais com os nomes dos alunos e suas respectivas classes. O caminho foi tranqüilo. Eu estava na escola há apenas dois anos e, como era pouco extrovertido, não tinha muitos contatos, por isso, não precisava me preocupar com o fazer o social.
Encontrei meu nome. Vasculhei os outros para ver se tinha companhia. Achei um. Nem precisava ter procurado. O sujeito, meu amigo, logo quando avistei sua alcunha no papel, começou a gritar “Fred, você é da minha sala!”. Aquilo me aliviou tanto. Não o suficiente para impedir que ficasse temeroso. Fomos para a sala.
“Onde fica essa 8ª D?”, perguntei. Hoje vejo como esse questionamento foi idiota. As turmas mudam a cada ano. Seria impossível saber. Só nos restava procurar. Avistamos. Não era difícil. Ao entrar no prédio rosa (nossa escola tinha essa cor) era necessário subir até o terceiro e último andar, virar a esquerda até alcançar o hall que tem bebedouro e banheiros. Enfim, isso não é relevante. Estando no hall, é preciso ignorá-lo e continuar em frente. No meio do caminho ficam as escadarias mais imponentes de todas. Ela é tão cheia de pompa que nos proibiram de passar por ela. Elas conduziam à imagem de uma santa. Eu nunca soube qual o nome da santidade representada. Verdade seja dita, nunca procurei conhecê-la. Ao passar a divina criatura, era só dobrar a primeira direita e adentrar na primeira porta a esquerda.
Meu amigo e eu fizemos este caminho e, na sala, sentamos nas carteiras do meio. Poucas pessoas chegaram naquele dia. Início de ano, a maioria falta na semana de reconhecimento. Com o tempo, eu mudei de lugar. Assentei-me na última carteira da penúltima fileira do lado oposto à porta. Meu amigo permaneceu. Pessoas estranhas me rodearam. Pelo que pude perceber, elas se conheciam. Portanto, deviam pensar “um ser oculto entre nós”. A culpa foi deles. Escolhi meu lugar primeiro. O assento viria a ser um motivo de discórdia. Eu mudaria de lugar novamente. Por incrível que pareça, quem brigou comigo pelo lugar não ficará nele. Pelo contrário, ele ficará ao meu lado até o fim desta série. O meu amigo? Ele não saiu do meio de forma alguma. Ele gostava de ser conhecido. Creio que a localização favorecia isso.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Apropriação
"... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida."
(Clarice Lispector - 'Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres')
(Clarice Lispector - 'Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres')
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