quinta-feira, 26 de março de 2009

Não devia ter escrito

"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida."
'Aniversário' - Álvaro de Campos
Arrependo-me de tanta coisa. Gostaria de voltar atrás em quase todas as escolhas que fiz até hoje. Por mais que tudo tenha sido exaustivamente pensado, de fato nada representa muito algo de mim. Levo em consideração muitos detalhes. E no fim das contas vejo que me apeguei aos mais banais.

Queria tanto dizer o clichê “Não me arrependo de nada” com convicção. Melhor, gostaria de acreditar nas pessoas que dizem isso. Não consigo enxergar a possibilidade de me orgulhar de todo trabalho feito e do não feito por mim.

Alguns erros cometidos são pequenos, outros nem tanto, mas o problema é o aumento do número de arrependimentos. Eles estão pesando meus ombros. Tenho vontade de ser radical, porém recuo. Vou me arrepender. Sou reformista, embora me entristeça ser assim.

Penso em mudar de cidade. Não tenho coragem. Não vai ser bom. Como pude me tornar tão inerte? Quero transformar o meu modo de ser. E se eu perder o respeito? Afinal todos me conhecem dessa maneira. Alguém me respeita?

Tenho certeza que daqui há alguns anos me arrependerei de ter me mantido igual. Tenho certeza que daqui há alguns anos me arrependerei de ter me feito diferente. Não tenho certeza de como tudo será daqui há alguns anos
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domingo, 22 de março de 2009

Sobre nome

Existe alguém com o meu nome. Não se trata simplesmente de um homônimo. Sei que existem vários. Porém, este tem o nome que tem por minha causa.

Tudo aconteceu na infância, quando eu estava no segundo período. Tinha vários amigos. Todos recentes, pois havia entrado no jardim de infância naquele ano. Entre meus pares havia um chamado Felipe Loyola. Éramos bastante próximos. A proximidade era tanta que ele sentia a necessidade de mentir que eu o havia visitado, ido com ele ao shopping, visto a prima dele pelada, etc. Não sei por que ele fazia isso. Nada disso aconteceu.

Lembro que ele sempre gritava meu nome ao me ver. Podia estar perto ou distante. Não importava, ele precisava berrar. Em um desses dias, na saída da escola, ele grita e diz ter uma surpresa. Só falou isso. Preferiu manter o suspense.

Só vim saber o que me aguardava no fim da tarde daquele mesmo dia. A mãe dele foi a minha casa para informar minha mãe e eu que, devido à insistência do Felipe, o filho que ela estava esperando se chamaria Frederico.

Isso é muito engraçado. Hoje não nos vemos mais, mas o Loyola é uma das poucas pessoas que eu sei que jamais vão me esquecer
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sexta-feira, 20 de março de 2009

In memoriam

Vivia a olhar. Assistia a filmes, músicas e poesias para ver se de alguma forma me encontrava nelas. O tempo passou, eu também. Não consegui.

As pessoas viviam a olhar todas aquelas coisas que outrora eu também vira. E de alguma forma, lembravam-se de tê-las visto em mim.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Profundo

"Como um desejo de eu viver sem me notar"
Verso de 'Gente Humilde', música de Vinícius de Moraes,
Chico Buarque, Garoto e Nicanor.
Algumas pessoas me perguntam se não me incomoda levar a vida da maneira que eu o faço. Elas me apontam como sem coração. Na verdade, o que elas querem dizer é que sou raso. Não vou dizer que é sempre bom. Porém, não corro o risco de me afogar.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Lanches Licious

Definitivamente, investir em jornalismo é bater com a cabeça na parede. É uma área saturada, de salários indignos e muitos altos e baixos, sendo que a desgraça é um pouco mais recorrente.

Graças a Deus, essa não é a minha única alternativa. Conversando com uma amiga, decidi abrir uma lanchonete com comidas básicas, mas tudo bem asseado. O custo inicial para abrir o negócio é baixo, pois nada exige ingredientes exóticos e a experiência necessária nós já possuímos. A clientela certamente aparece com o tempo, afinal serviremos bem. Seja um café, almoço, jantar ou lanchinho da noite... tudo será feito com muito ânimo e empenho.

Minha amiga atua no ramo há alguns anos e, como ela diz, com o meu apoio é fato que atenderemos toda a cidade, tendo chance de atrair até altos executivos com nossos produtos suculentos. Apenas nos resta tentar dar certo.



Veja nosso primeiro anúncio:




Ops, meu nome saiu errado. Era pra estar ali no
lugar de Luana.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Delitos e deleites

Engraçado, quando tento me lembrar o que já fiz, tirando tudo de seus contextos, me sinto um delinquente neurótico. Por isso, é importante dizer que “Não sou nada disso”.

A primeira coisa que me vêem a cabeça é que já roubei a padaria. Foram três picolés. Um de cada vez. Sem querer fazer apologia ao crime, não me lembro do sabor dos picolés, mas lembro da sensação de estar comendo os mais gostosos de todos.

Continuando na área alimentar, é bom que saibam que já fui gordinho. E, certa vez, inventei uma dieta para deixar de ser: a dieta da taioba. Comi taioba, só taioba, por vários dias. Parei no dia em que olhei para o vaso sanitário e me espantei com meu coco todo verde.


Também já passei semanas tomando apenas leite. Cismei que se ingerisse algo sólido passaria mal. Nessa época eu descobri que quase sempre eu tenho razão, pois, ao fim da terceira semana, comi pão e adivinhem no que deu. Passei mal mesmo!

Ah, tive um cemitério de mosquitos. Todo mundo brigava comigo porque eu matava os bichos para enterrá-los. Foi aí que vi meu poder argumentativo. Sempre respondia: “Você vê mosquito morto naturalmente pelos móveis afora? Como quer que eu mantenha um cemitério sem mortos?”. Depois dessa ganhei meu primeiro mata-mosca.

Falando em mortos, já ameacei meu irmão com uma faca, mas já vou dizendo, tive motivos. Ele não queria trocar de canal! Preferia me forçar a ver aquelas coisas enfadonhas de esporte. Mesmo sabendo disso, as pessoas insistiam em me recriminar.

Enfim, já menti e floreei histórias para me sentir bem. Não quer dizer que faça ainda, ou quer. Vai saber!

sábado, 7 de março de 2009

Sinto muito

Não gosto de pessoas sensíveis. Elas são chatas. Enfiam o bendito sentimento em todas as discussões e conseguem transformar qualquer atitude ‘bondosa’ em exemplos de vida. Sem contar que não se pode conviver com elas normalmente, pois uma atitude impensada pode magoar as pobrezinhas.

Personificação de livro de auto-ajuda. É isso que elas são. Fáceis de ler, conteúdo parco e dizem sempre a mesma coisa. Algumas podem até ser best-seller, porém jamais serão respeitadas.

Será que só eu prefiro pessoas objetivas e nada sentimentalóides? Por que esse tal de Shrek, um ogro que nega a raça por ser ‘gracioso’, faz sucesso? Acho que esse mundo está perdido. Tem muita gente apostando nas mocinhas, sendo que quem constrói e dá consistência às histórias são as vilãs.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Sem cobertura

Eu tenho inveja de quem tem muito dinheiro. Só dos que tem muito mesmo. Deve ser incrível simplesmente comprar as coisas. Ir aos lugares. Pagar as contas e tudo mais sem a menor preocupação se vai restar uma mísera quantia para o próximo fim de semana. Não é uma cobiça do bem ou como muitos dizem uma invejinha branca. É negra mesmo. Daquelas que o diabo gosta.

Não acho que isso me torne um ser humano ruim. Ando tão desassossegado com minha questão financeira. Não consigo fazer nada em paz. Preciso pensar mil vezes antes de tomar um sorvete. Falando nisso, fui a uma sorveteria a quilo essa semana. O preço dela não refrescava em nada. Servir-me foi um martírio. Coloquei três bolas minúsculas. Tão pequenas que se banhasse em alguma cobertura verde poderiam passar tranquilamente por uvas.

Coloquei na balança. Há muito não sou religioso, mas de repente me pego pedindo a Deus que o marcador de preço parasse de subir. Ele não parava. Cheguei a desejar que o sorvete derretesse subitamente. Não sei por que penso que derretido pesará menos. Acho que ainda tenho aquela síndrome que nos faz achar quinhentos gramas de chumbo mais pesados que meio quilograma de pena.

No fim das contas, foi bem caro. Tentei desviar minha atenção e não ficar pensando tanto no valor do sorvete. Fui para a mesa na expectativa de que o sabor daqueles pequenos grãos me faria ver o quanto cada centavo foi bem empregado. Era bem gostoso, mas não o suficiente para me fazer esquecer. Mesmo se conseguisse abstrair o dinheiro gasto meu sossego não duraria muito. O sorvete não durou.

Enquanto isso, eu olhava as mesas ao lado e as pessoas ostentavam potes gigantescos. Isso não me incomodava. Na verdade, eu fiquei p*** da vida ao perceber que elas, mesmo com aqueles tonéis de sorvete, conseguiam ser felizes. Elas eram tranquilas. De onde vinha tão nobre sentimento?

Observei mais um pouco. Nesse momento, olhando para a pele delas, eu vi a grande diferença entre nós. Estava no bolso e na cara. A delas deixava evidente que foram tratadas desde a infância, puramente, a base de danoninho. Enquanto eu amargava jarras e mais jarras de gelatina.