terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Joguete

Nosso único objetivo era a conversa fiada. Ficávamos horas a fio jogando palavras de um para o outro. Ora falávamos bobeiras, ora coisas sérias. Tudo sem muita importância, porém pensávamos nesse tudo com bastante apego. Nossa vida era analisada, revisada e tínhamos total liberdade de recriminar ou louvar a atitude do outro.

Pelo que eu me lembro, nós nunca brigamos. Como ela mesma diz, nossa relação existe desde o nascimento (eu vim depois). Ela chama o nosso envolvimento de contrato. A assinatura do acordo foi feita há 23 anos. Rescindi-lo seria caríssimo. Essa não é a intenção.

Somos primos. Alguns acham que namorados. Na verdade, somos só primos. E amigos. Mais amigos que primos. Para não gerar muita polêmica, somos os dois. Ela não curte muito o resto da família. Eu nem um pouco. A família meio que nos odeia. Um tipo de ódio cheio de amor.

Nossas conversas, as vezes, chegavam a conclusões. Raríssimo. Dessas constatações, a que mais me lembro diz respeito ao jogo queimada.

- Eu era muito bom na queimada. Fugia de todas as bolas. – eu disse.

- Também era. – ela se empolga

- Nossa, eu era um dos primeiros a serem escolhidos pelo capitão do time.

- Eu gostava de ser a capitã. Sempre gostei de selecionar o pessoal. É bom pra montar um time forte.

- Ah, eu prefiro saber que gostam do que faço. Por isso, ficava no banco para ser apenas chamado.

- Aqui, você tinha mania de jogar tanto, mas tanto que chegava uma hora que não tinha mais força para jogar? – ela me pergunta.

- Ih, direto. Eu continuava jogando mesmo querendo parar.

- É... tem uma hora que cansa.

- É.

- Aí eu pedia altas. - ela se entrega.

Não sei a razão, só sei que nesse momento nos calamos e só ficamos olhando ao nosso redor até que eu soltei um pedaço da minha sabedoria juvenil.

- A vida também cansa. Acho que eu quero altas.

- Tô de altas – ela se apressa.

Rimos demoradamente e, no fim, continuamos a jogar mesmo querendo parar.

P.S.: altas é uma forma de sair do jogo sem ser um desligamento definitivo. Quem pede altas sempre volta a jogar. Portanto, em hipótese alguma pensamos em morrer.

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