sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Carnavais

A crise levou meu salário embora. Dizem que um dia ele chega. Só resta esperar. O carnaval, porém, não aguardou nem mais uma semana. Está aí. Hoje já tem aquela galera desfilando em São Paulo. Sem contar o povo que está pegando o caminho para deixar a roça. E eu? Fico aqui.

Acho que o mais interessante a se fazer em BH nesses dias é tomar sorvete. Vou fazer isso todos os dias. Melhor não, tenho que economizar o pouco dinheiro que me resta. Ser imprudente pode me obrigar a pedir dinheiro emprestado para a minha família, para um agiota ou até para um banco. Tentarei pensar em um plano B.

Posso repetir o carnaval de 2007 em que chamei minha prima pra fazer um pic-nic na pracinha perto aqui de casa. Foi um banquete. Levamos brigadeiro, refresco de laranja e biscoito maisena. Também reservamos uma cartela de dramin para tomar mais a noitinha e dormir até o fim do próximo dia. Tudo isso para ver se o tempo passava mais depressa.

Chegamos à praça, já era tarde. Montamos a mesa. Consideraríamos aquilo uma fartura se na nossa frente não tivesse uma pizzaria e churrascaria cheia de gente se matando de tanto comer. Nossa visão nunca foi tão aguçada. Eu via o catupiri se desmanchando na boca das pessoas. Eu parava de olhar, mas não tinha jeito. Minha imaginação projetava aquelas cenas na frente dos nossos olhos. Nem podíamos pensar em entrar naquele lugar. Tudo era caro. Assim como hoje, não tínhamos um centavo.

Ah, onde estávamos não tinha iluminação. Comiamos no escuro. De repente, parece que Deus resolveu fazer um remake das pragas que ele impôs aos egípcios, o ambiente se encheu de pernilongos. Fomos esvaziados.

Saímos da praça. Nosso banquete não durou mais que 45 minutos. Nos dirigimos para a casa dela. Costumo andar depressa. Contudo, nesse dia eu controlei meus passos, pois ela me repreendeu dizendo que daquele jeito chegaríamos muito rápido. Era melhor aproveitarmos a caminhada já que era a única coisa que tínhamos para fazer.

Na casa dela, nós começamos a ver TV. Era hora dos desfiles. Murchamos ainda mais. Estávamos sendo intensamente bombardeados com a felicidade alheia. Desligamos. Chegou a hora de uma decisão drástica. A única saída era tomar aquela substância que nos salvaria de tudo aquilo (o dramin). Ela foi a primeira a engolir, não antes de jurar que os próximos carnavais seriam diferentes. Eu o fiz logo em seguida, reiterando sua promessa.

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