segunda-feira, 2 de março de 2009

Sem cobertura

Eu tenho inveja de quem tem muito dinheiro. Só dos que tem muito mesmo. Deve ser incrível simplesmente comprar as coisas. Ir aos lugares. Pagar as contas e tudo mais sem a menor preocupação se vai restar uma mísera quantia para o próximo fim de semana. Não é uma cobiça do bem ou como muitos dizem uma invejinha branca. É negra mesmo. Daquelas que o diabo gosta.

Não acho que isso me torne um ser humano ruim. Ando tão desassossegado com minha questão financeira. Não consigo fazer nada em paz. Preciso pensar mil vezes antes de tomar um sorvete. Falando nisso, fui a uma sorveteria a quilo essa semana. O preço dela não refrescava em nada. Servir-me foi um martírio. Coloquei três bolas minúsculas. Tão pequenas que se banhasse em alguma cobertura verde poderiam passar tranquilamente por uvas.

Coloquei na balança. Há muito não sou religioso, mas de repente me pego pedindo a Deus que o marcador de preço parasse de subir. Ele não parava. Cheguei a desejar que o sorvete derretesse subitamente. Não sei por que penso que derretido pesará menos. Acho que ainda tenho aquela síndrome que nos faz achar quinhentos gramas de chumbo mais pesados que meio quilograma de pena.

No fim das contas, foi bem caro. Tentei desviar minha atenção e não ficar pensando tanto no valor do sorvete. Fui para a mesa na expectativa de que o sabor daqueles pequenos grãos me faria ver o quanto cada centavo foi bem empregado. Era bem gostoso, mas não o suficiente para me fazer esquecer. Mesmo se conseguisse abstrair o dinheiro gasto meu sossego não duraria muito. O sorvete não durou.

Enquanto isso, eu olhava as mesas ao lado e as pessoas ostentavam potes gigantescos. Isso não me incomodava. Na verdade, eu fiquei p*** da vida ao perceber que elas, mesmo com aqueles tonéis de sorvete, conseguiam ser felizes. Elas eram tranquilas. De onde vinha tão nobre sentimento?

Observei mais um pouco. Nesse momento, olhando para a pele delas, eu vi a grande diferença entre nós. Estava no bolso e na cara. A delas deixava evidente que foram tratadas desde a infância, puramente, a base de danoninho. Enquanto eu amargava jarras e mais jarras de gelatina.

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