terça-feira, 22 de junho de 2010

O que resta

Egon Schiele


No último domingo (20/06), estava assistindo ‘Fantástico’ e vi uma matéria sobre um grupo de garotos que em 2000, todos com 14 anos, escreveram e enterraram uma carta com suas expectativas, seus planos e suas previsões sobre como eles e o mundo estariam passados 10 anos. Como estamos em 2010, já era hora de desenterrar.

Alguns dos então adultos lidaram com a situação de maneira descontraída, rindo do quanto eram sonhadores e mesmo bobos. Outros deixaram explícito em suas expressões as frustrações que tudo aquilo suscitava. Arrependimento, tristeza, decepção eram palpáveis nas diversas imagens e ainda assim o programa pecou em não explora-los. Não esperava que fizessem isso de forma sensacionalista, mas de modo a evidenciar a humanidade que perpassa o pensamento juvenil, certo em suas convicções, e o pensamento adulto que ao refletir sobre aquele percebe o quão falho era e se esquiva de qualquer certeza em absoluto.

Embora tenha considerado a matéria pobre e pouco abrangente, não posso negar o apelo que ela exerceu, pelo menos, em mim. Coincidentemente, tinha 14 anos em 2000 e, como eles, tinha vários ‘projetos’ que, em sua maioria, não se realizaram.

Não tenho nada escrito dessa época, porém lembro-me bem de muita coisa. Achava que aos 24 anos seria um adulto bem sucedido, possuidor de um carro e uma casa, ainda seria evangélico, casado, sem medo de morrer (aos 14 eu já fazia terapia para me livrar disso), etc. Em geral, acreditava que aos 24 anos já teria todo aparato necessário para me proporcionar uma vida plena e feliz dali em diante.

Posso afirmar, sem medo, que nada do que almejava aconteceu. Continuo utilizando o sistema público de transporte, a temer a morte. Não tenho religião, nem emprego. Contudo, atualmente tenho, algo que não possuía naquela época, o sentimento de culpa por ter me deixado chegar a essa idade sem nenhuma conquista, nenhuma construção.

Pela matéria percebi que não sou o único a se perder no tempo e se entregar ao acaso nada agradável, mas isso não me alegra. Gostaria de ouvi aqueles que como eu se perderam, de falar o que se passou comigo e propor a mesma atividade para os próximos 10 anos. Em outras palavras, propor que ainda há esperança (ilusão?) para o tempo que nos resta.