"Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo"
Oração ao tempo, Caetano Veloso
Por mais que o tempo passasse e as coisas que fizesse resultassem em algo bom, ele continuava acreditando não estar preparado. Ele não se achava pior. Apenas sentia estar queimando etapas. Nada estava no tempo, nem lugar correto. Os dias eram afobados, a vida corrida e ele lento. Não uma morosidade preguiçosa, era, na verdade, uma leveza em ser.
Era cobrada dele uma ação logicamente sequenciada, quando na verdade, a sua necessidade, era viver com a liberdade de um cavalo do xadrez. Sempre andar em L, mas sem perder a possibilidade de ora ir para frente, ora ir para trás e, no mais das vezes, simplesmente ficar parado para que alguém o derrubasse.
Os carros seguem o fluxo, a televisão a sua grade, os crentes a sua religião e ele queria seguir levando a mesma vidinha pontual. Às vezes estar aqui, em outro momento estar lá, sem se importar com o caminho, com o tempo do percurso, sem se atentar a nada. O deslocamento o firmava.
O olhar de ontem que sempre ostentava provocava emoções variadas em quem o visse. Quem não o entedia, o desdenhava. Os que pensavam que o conheciam, também. Os capazes de compreendê-lo, não se manifestavam. Eram também eles leves e para se manterem assim, optavam por pensamentos breves. Prazerosos, críticos, mas sempre breves. O viam, o entendiam e o deixavam ir.
Ele ia. A sua vida ia. Sua lerdeza ia. Ficava para os outros o peso daquela mesma rotina, de estar a tempo, de sempre ser preciso, lógico, de ter inúmeros objetivos e se alegrar com a realização de alguns deles, poucos deles. Deixava aos outros a angústia de perceber que a vida não precisa ser assim.