Tem acontecido alguma coisa. Não sei o que é. Minha vida carece de algo. Será isso um princípio de depressão? Acho que não. Como diria uma conhecida, com os olhos marejados durante a fala: “Depressão é coisa de rico”.
Então o que será? Afirmar que minha vida não tem emoção é muito plausível. Porém, seria uma tentativa de iludir. Nunca teve muito atrativo. A mansidão dos meus dias não é, de forma alguma, excesso de expectativa. Eu me contentaria com pouco. Por exemplo, adoraria viver o que se passou com minha conhecida.
A casa em que ela morava, quando era jovem, tinha uma janela voltada para a rua. Ela gastava suas tardes debruçada no parapeito vendo as pessoas, os carros e o que mais passasse. Entre os objetos animados e inanimados, ela escolheu um certo rapaz para admirar. Tornou-se condição para um dia agradável assistir o moço cruzar sua janela tragando o cigarro de todos os dias.
Semanas se sucediam. Tudo continuava a funcionar da mesma maneira. Um relógio não conseguiria ser tão constante. Contudo, a essa altura, sonhava a conhecida com o encontrar dos ponteiros. Havia concluído que queria sentir o que até então só via. Era preciso mais contato. Conciliar o notar ao ser notado.
“Me dá um trago”, disse a conhecida. “Toma”, respondeu o rapaz levando o cigarro às mãos da moça. Na verdade, ele não disse nada. Apenas ofereceu o tabaco. Estava imerso na indiferença que nos protege dos outros.
Ela sorveu aquela substância com força e sem jeito. Era um pedaço dele. Uma transgressão para ela. Não por conta de estar consumindo pela primeira vez um tóxico, mas por ter quebrado a linearidade dos seus dias.
Devolveu o cigarro. O homem se foi. Nada aconteceu. Não com relação a seu afeto. Ganhara um vício. Acrescentou-se algo novo a sua vida, embora isso ameaçasse tirar dias de sua existência. Isso para ela pouco importava e ainda hoje não tem relevância. Seus dias mudaram de cor. Atualmente, ela vê a jovem da janela em seu sorriso amarelo-cinza.
Voltando ao meu assunto: o que será? Não sei. Vai ver que é a minha falta de janelas.
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