terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A lembrança do meu braço roxo

Chovia. Estávamos eu, meu irmão e meu pai dentro do carro. Corríamos. Meu pai sempre achou que dirigir bem fosse o mesmo que chegar rápido. Rodávamos. E enquanto tudo girava, o carro bateu no automóvel da frente e só parou na mureta do viaduto.

Não houve tempo nem para pensar. Um medo foi trocado por outro. Sem saber por que, após o acontecido, ele voltou a correr. Cada vez mais. Passado algum tempo, eu com a lerdeza comum de uma criança quando confrontada com assunto de adultos, percebi que meu pai estava fugindo do proprietário do automóvel com o qual tinha se chocado. Tudo isso para não pagar pelos danos que causou.

Eu só chorava. Não sei se mais pelo medo ou, simplesmente, por ter percebido que meu pai é todo errado. Na verdade, minha tristeza vinha do conjunto. Na mesma hora me vinha à mente ‘podíamos ter ultrapassado aquele muro e morrido’ e ‘para que tudo isso?’. Se ele não fez o certo, ele tem que arcar com as conseqüências’. Mas não. Ele não pensava assim.

Meu irmão não se manifestava. Ele nunca se pronuncia. Às vezes, penso que é melhor assim. Só não consigo ser dessa maneira. Pelo que posso ver, ele se sai bem nas situações. É mais aceito. Só não sei se é conhecido. Ele não se expõe, eu não o vejo.

No fim das contas, conseguiu fugir. Ninguém anotou a placa. Afinal, meu pai não foi procurado por uma vivalma. O amassado ficou no carro.

Em um outro dia, eu bati no meu irmão. Ele se queixou com meu pai, que logo veio perguntado: “Onde você bateu?”. Eu mostrei que havia sido no braço. Um soco no braço. O golpe conferido a mim foi o mesmo, dado no exato local com intensidade muito maior. Eu era pequeno, ele grande. “Porque se você faz com o outro, tem que agüentar quando este fizer como você. O que você fez não é certo.”. Nesse dia eu soube que o errado só vale para mim.

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